quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Annabelle 2 - A Criação do Mal

Inspirada em uma boneca real, Annabelle foi apresentada ao público em 2013 no primeiro e excelente Invocação do Mal. O caso real do brinquedo amaldiçoado serviu como introdução para o casal de demonólogos que protagoniza a franquia. No ano seguinte ela ganhou seu primeiro filme solo. Eficiente porém não tão brilhante, a produção abusava dos clichês do gênero, mas assustou a audiência o suficiente para garantir uma segunda incursão nas telas. E que surpresa, Annabelle 2 - A Criação do Mal é melhor que seu antecessor.

O primeiro longa volta no tempo para as "aventuras" de sua personagem título antes de ser detida pelos Warren. Este novo filme repete a cronologia invertida e retrocede ainda mais, até a época em que a boneca artesanal foi construída. O casal Mullins (Anthony LaPaglia e Miranda Otto), fabricam brinquedos quando sofrem uma grande perda na família. Anos mais tarde transformam sua casa em abrigo para um grupo de órfãs desalojadas. Não demora muito, para as meninas "explorarem" a residência e coisas estranhas começarem a acontecer.

Mais parecido com os longas Invocação do Mal do que com o Annabelle original, o filme não escapa de usar os clichês do gênero. Apesar dos sustos fáceis estarem de volta, a produção é mais eficiente na construção de um clima de medo constante. Isso porque, mesmo uma coisa que fica no "lugar comum" pode funcionar se bem feita. E o diretor David F. Sandberg (Quando as Luzes se Apagam) sabe como construir a tensão mesmo em torno de um acontecimento esperado. Para isso,  tira um certo tempo apresentar o contexto, o que deve desagradar aqueles que entram no cinema esperando susto logo nos primeiros quinze minutos de filme.

Apesar desta preocupação em apresentar, o roteiro não é dos mais complexos ou profundos. Sim, se você assistiu alguns filmes de terror na vida vai deduzir muita coisa que está por vir. Alguém vai fazer o que não deve, eventos estranhos passarão despercebidos por muitos dos personagens, outros insistirão em vagar pelo escuro sozinhos, a música eventualmente vai subir e... Bú! Normalmente, esta obviedade me entediaria ou irritaria, mas os acertos compensam o "mais do mesmo" e mantém o interesse no filme.

O primeiro deles é a escolha das talentosas atrizes mirins que vão levar o expectador através da trama, e a apresentação de suas personagens. Não é difícil acreditar na amizade de Janice (Talitha Bateman) e Linda (Lulu Wilson), a partir daí é impossível não se preocupar com seus destinos. Linda inclusive, é surpreendentemente corajosa e até esperta para um personagem do gênero. 

Já o elenco adulto não surpreende, mas Anthony LaPaglia e Stephanie Sigman conseguem acertar o tom do chefe de família endurecido pelo trauma e da tutora preocupada das crianças, respectivamente. Já Miranda Otto é subaproveitada. Envolta em mistério no início da história a Sra. Mullins poderia ter um desfecho interessante, ou melhor trabalhado. Ao menos, sua resolução é graficamente assustadora.

E por falar em "graficamente assustador", a direção de arte acerta ao desenvolver o ambiente da casa. A residência, sem vida quando as meninas chegam, aos poucos escurece e se torna um ambiente opressor conforme o terror se intensifica. Também há pistas e detalhes nos objetos e paredes. Desde óbvias fotografias, até crucifixos escondidos no design da casa.

Também fico satisfeita em dizer que eles continuam resistindo a tentação de fazer a Annabelle se mover em cena - ela não é o Chuck!. Usando outros artifícios, que incluem efeitos práticos e digitais, para "perseguir" as vítimas. Ou usando a sugestão do que não a vemos fazer para nos assombrar.

Entre as já esperadas incapacidades dos personagens em seguir regras, encontrar interruptores, ou simplesmente correr na direção oposta, Annabelle 2 - A Criação do Mal, consegue criar bons momentos de tensão. Aqueles em que não estamos apenas esperando o próximo susto, mas realmente com medo do que está por vir. Não é o melhor do universo de terror produzido por James Wan, mas é eficiente e torna sua personagem título icônica o suficiente para continuar aterrorizando imaginário popular por mais algum tempo.

Annabelle 2 - A Criação do Mal (Annabelle: Creation)
2017 - EUA - 110min
Terror


P.S.: Existe uma cena pós-créditos.

Leia as crítica do primeiro Annabelle, e de Invocação do MalInvocação do Mal 2.
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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

The Handmaid’s Tale

Nosso mundo não é perfeito, talvez por isso vivamos esquecendo: ele já foi pior e sempre pode voltar a ser. Basta apenas uma escolha errada. The Handmaid’s Tale é uma daquelas necessárias obras que vem para nos lembrar disso.

Nesta distopia passada em um futuro próximo de uma sociedade incomodamente muito parecida com a nossa, a humanidade passa por uma grave crise de fertilidade. Não demora muito para o medo da extinção criar o caos e uma nova ordem social se estabelecer nos Estados Unidos. A República de Gilead é um regime teocrático totalitarista, que reorganizou a sociedade em castas. Uma delas, as "Handmaids" (aias em português), é formada por mulheres comprovadamente férteis - leia-se que já tiveram filhos antes. Estas são designadas para as casas dos líderes governantes para gerar filhos para eles e suas esposas. 

É nesta situação que conhecemos a protagonista Offred, achou o nome estranho? Offred ="of Fred", literalmente "de Fred" em inglês, nome do comandante a que foi designada. Sim, nesta sociedade até mesmo os nomes destas mulheres foram retirados e elas não são as únicas em uma situação absurda.

Gradual e rapidamente, todos os direitos das mulheres são revogados, sem consulta, prévio aviso ou explicação, até o ponto em que elas passam a ser propriedade do estado. O que vemos através de bem colocados flashbacks de seu passado. Descobrimos também como o novo sistema foi implantado e a reação das diversas pessoas à ele. Desde aqueles que lutaram contra, até os que foram convencidos. Lavagem cerebral também está entre os temas, muitas das mulheres foram levadas a crer que seu novo "papel" é necessário para a humanidade, além de um dever divino. Técnicas de vigilância, controle e para evitar a união das "classes inferiores" também são mostradas em cena.


Mas a temática principal é mesmo o estupros ritualizados e mantido por lei, como ápice da exploração da mulher, mesmo as pertencentes às castas mais altas. As esposas dos comandantes também fazem parte do "ritual", e claro, não estão confortáveis com isso. Além da violência física, agressão moral e psicológica também são discutidas. As mulheres, não podem ter empregos, propriedades, ou mesmo ler. As aias não são mães dos bebês que geram, enquanto as esposas submissas ajudam seus maridos a terem filhos com outras, e criam as crianças posteriormente. E acima de tudo, são pessoas comuns que antes tinham trabalho, família, uma vida como a maioria de nós, o que torna todo o contexto uma realidade possível - e que existe sim de certa forma - fora das telas.

Apesar de levantar todas estas questões feministas The Handmaid’s Tale, não é uma série panfletária. O objetivo não é diminuir os homens, mas mostrar até onde uma sociedade pode chegar. E aliás já chegou em alguns momentos da história humana, e tem absurdos semelhantes ocorrendo no momento em que você lê este texto. O mundo totalitário e sexista da maternidade, é apenas uma das maneiras de que a humanidade pode "dar errado". E não é uma novidade, O Conto da Aia, livro de Margaret Atwood que inspirou a série foi lançado em 1985.

Nada disso no entanto teria impacto se a série não alcançasse a audiência coisa que ela consegue com uma bela construção de universo. O mindo de Gileard, é uma versão deliberadamente "atrasada" do nosso. A tecnologia existe, mas é limitada assim como a comunicação. As roupas são conservadoras tudo definido para supostamente criar um mundo "mais natural", que respeite o planeta e os preceitos desta religião extremista. O resultado é eventualmente nos surpreendermos ao ouvir a trilha sonora, cheia de clássicos modernos e percebermos que não se trata de uma produção de época. Jogando na cara do expectador novamente o fato de que esta realidade pode acontecer um dia.

 Essa construção também passa pelas cores. Uma fotografia desgastada e cheia de contra luz transforma aquele mundo em uma enorme pintura á óleo. Até o tom das roupas das mulheres tem seu propósito. Determinam seu papel naquele mundo e fazem um paralelo com figuras bíblicas. Enquanto os tons de azul e verde das esposas fazem alusão à virgem Maria, o vermelho das aias fazem paralelo com Maria Madalena. Além de as tornarem os elementos mais reconhecíveis e vívidos em cena, afinal são elas que trazem a vida. Mas vermelho também representa, agressividade, transgressão e desejo, muitas mensagens para apenas um figurino.

As atuações também chamam atenção, principalmente Elisabeth Moss. Conhecida por Mad Men, a atriz, vive uma protagonista bastante eloquente e articulada e cheia de opinião, mas que numa situação de repressão extrema, precisa - e consegue - transmitir tudo que pensa e sente através apenas de olhares, expressões e pequenos gestos. Samira Wiley (a Poussey de Orange is The New Black) que vive a melhor amiga de Offred, é eficiente mas tem um papel bastante parecido com que teve na série da Netflix. Yvonne Strahovski (Dexter, Chuck) acerta o viver a elegantemente contida Serena Joy, esposa do comandante da protagonista, que tem uma história muito mais densa que a fachada de "bela, recatada e do lar" demonstra. E por falar nele, o opressor chefe da casa é vivido por Joseph Fiennes.


A sempre excelente Ann Dowd (The Leftovers) continua intimidadora como a Aunt Lydia. A outra surpresa fica por conta de Alexis Bledel, a eterna Rory de Gilmore Girls, finalmente abandona os papéis de boa menina. Na pele de "Ofglen", não só encara seu trabalho mais denso e desafiador até então, como o faz muito bem. Basta dizer que à certa altura você esquece que ela já foi a Rory, pela primeira vez.

Falas inteligentes, e o bom ritmo do roteiro, apenas ajudam ao bom elenco entregar um trabalho intrigante e impactante. Não há como não parar para refletir a cada um dos dez episódios, ou ainda se preocupar com cada uma destas mulheres. Se a narrativa e as muitas discussões que a trama levanta não forem suficientes para você, o esmero visual ainda é um atrativo à parte, assim como a trilha sonora. The Handmaid’s Tale é uma das melhores surpresas televisivas do ano, e sua segunda temporada já foi confirmada. 

A parte ruim, é que a produção pertence a plataforma de streaming HULU, que não está disponível no Brasil. Mas este é um raro caso, em que encorajo as pessoas a assistirem, assim que puderem, como puderem. Além de excelente, a produção é um necessário lembrete de que o mundo pode "dar errado" a qualquer momento.
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domingo, 13 de agosto de 2017

Os pais em Harry Potter

É dia dos pais. Hora de aproveitar a data comemorativa em questão para exaltar figuras paternas de outro universo fantástico. Se você já acompanha o blog, já deve imaginar qual fantasia vamos visitar, assim como no Dia das Mães, vamos matar a saudade dos personagens de Harry Potter.

Tiago Potter

O pai do protagonista é o primeiro da lista. Foi morto antes da história começar, mas sabemos que era um pai dedicado - morreu tentando proteger a esposa e o único filho - e um bom amigo. Embora não tenha escapado de alguns deslizes de caráter na adolescência. É descendente de Ignotus Peverell, dono original da Capa de Invisibilidade, uma das três relíquas da morte, que deixou de herança para Harry Potter.

Arthur Weasley

É o paizão da franquia, não apenas porque tem muitos filhos - Gui, Carlinhos, Percy, Fred e Jorge, Rony e Gina - sete no total, mas porquê serve de figura paterna para todos os jovens com que convive. Aquele tipo de pai amigão, deixa os filhos aprontarem um pouco, e as vezes apronta junto, criando um equilíbrio na família em contraste com a esposa mais "linha dura".

Lúcio Malfoy

Arrogante e com complexo de superioridade, transmitiu estes péssimos valores para o filho único. Estava do lado errado da luta, mas acabou abandonando a causa no final e passou toda a batalha de Hogwarts à procura de Draco, ao invés de lutar.

Remo Lupin

Professor no terceiro livro, melhor amigo de Tiago e lobisomem desde adolescência Remo sempre temeu ter filhos e passar sua condição lupina para as crianças. Quando Edward "Teddy", seu filho com Ninfadora Tonks, ficou extremamente feliz pelo menino não ter herdado sua maldição. Em busca de um mundo melhor para o filho, lutou ao lado da esposa na Batalha de Hogwarts. Ambos morreram e Teddy foi criado pela avó materna, com a ajuda do padrinho Harry Potter.

Valter Dursley

O trouxa da nossa lista também mimou demais seu filho único Duda. Ao mesmo tempo foi um péssimo tutor para Harry, sobrinho de sua esposa Petúnia a quem teve que acolher depois da morte dos pais. Odiava magia, e consequentemente o sobrinho bruxo, provavelmente por temer e não compreender seus poderes.

Xenofílio Lovegood

O excêntrico pai de Luna, acredita e pesquisa coisas em que a maioria das pessoas não acredita. Cria sua filha como uma mente e espírito livre. É apoiador de Harry Potter, mas acaba armando uma emboscada para o escolhido, Ron e Hermione em uma medida desesperada de salvar a filha sequestrada pelos comensais da morte.

Draco Malfoy

Apesar de ter sido criado para ser arrogante e com complexo de superioridade, alguma coisa Draco deve ter feito certo. Seu filho Escórpio, que só aparece de fato na peça Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, é uma criança adorável que cresceu isolada na mansão e só quer fazer amigos.

Ron Weasley

Pai de Rosa e Hugo, tem uma postura encorajadora em relação aos filhos. No primeiro ano de Rosa em Hogwarts encoraja a menina à se sair melhor que Escórpio Malfoy em todos os testes, o que ele afirma ser fácil já que a menina puxou a inteligência da mãe.


Harry Potter

Pai de Tiago Sirius, Alvo Severo e Lilian Luna, tem um péssimo gosto para combinar nomes - ou será que foi a Gina quem escolheu? - Mas é um pai compreensivo e consciente das diferenças entre seus filhos. Ele tranquiliza Alvo, sobre a possibilidade de ser sorteado para a Sonserina ao invés da Grifinória.

Não faltam bons exemplos paternos no universo criado por J.K.Rowling, qual é o seu favorito?
Parabéns aos pais, bruxos e trouxas de todo o mundo!

Leia mais posts dedicados aos pais e confira a lista de Mães de Hogwarts!
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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Depois de uma sequência que esclarece como uma única cidade pode ter mil planetas, somos apresentados a um belo povo de CGI - belo no melhor dos sentidos - e seu destino trágico. E então somos finalmente jogados na vida dos protagonistas, de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas.

Sim, protagonistas, no plural porque apesar do título a "parceira" do personagem que dá nome ao filme tem tanto espaço quanto ele. Não que isso seja exatamente uma grande vantagem. Valerian (Dane DeHaan) e Laureline (Cara Delevingne) são um agentes espaço-temporal que trabalham em defesa da Terra e dos seus planetas aliados.

E isso é o máximo que podemos contar do filme sem dar grandes spoilers. Infelizmente, não porquê a trama seja complexa e cheia de surpresas, mas porquê é tão simples que seu desfecho pode ser adivinhado ainda nos primeiros minutos da projeção. Já o desenvolvimento é confuso e irregular, com muitas cenas desnecessárias para a narrativa, como a primeira missão dos protagonistas. Muito longa mas que acrescenta pouco à história. Não satisfeito, o roteiro repetitivo ainda acha necessário parar algumas vezes para re-explicar tudo que vimos.

Mas uma aventura simplista não seria o maior dos problemas se você se importa com aqueles que embarcam na jornada. O que também não é o caso. Valerian e Laureline são arrogantes e cheios de si, menosprezam os companheiros de trabalho ao ponto que a maioria deles não sobrevive a uma missão ao seu lado. A escolha de elenco também não ajuda.  DeHaan tenta fracassadamente emular um bad boy ao estilo de Han Solo - aliás um desvio enorme da versão original dos quadrinhos -, mas soa apenas com um canastrão cheio de trejeitos marcados. Já Delevigne é linda, e apenas isso. Ela não consegue imprimir verdade além das caras e bocas de uma modelo em uma personagem que deveria ser uma mulher forte, inteligente e cheia de atitude. Nem precisa dizer que a dupla não tem química para o romance jogado forçadamente na cara do expectador ainda na primeira cena da dupla.

Sem acreditar naqueles que conduzem a história, fica impossível para o expectador se importar com sua história. Mas gera o fenômeno curioso de nos importarmos mais com os coadjuvantes, criados por computação gráfica, mas não o suficiente para nos apegarmos à produção. Mesmo a personagem de Rihana é mais carismática que a dupla principal, embora sua participação seja curta e completamente descartável.

A parte de tudo isso, a produção cria um universo complexo e cheio de nuances que desperdiça ao focar apenas nos protagonistas. A premissa da tal Cidade dos Mil Planetas por exemplo é excelente, uma iniciativa humana de união entre os povos que cresceu ao ponto de ter povos de muitas raças vivendo juntas. Infelizmente pouco vemos da vida em Alpha e suas centena de povos. Tudo criado com um deslumbrante e criativo design de produção, que não tem medo de soar referencial à outras obras. Vale sempre lembrar que muitas destas obras que o longa parece fazer referência como Star Wars e Gardiões da Galáxia foram na verdade inspiradas pela HQ Valérian et Laureline, no qual o longa de Luc Besson é baseado.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é baseada em um material icônico, tinha potencial inclusive para virar uma franquia, e é visualmente deslumbrante. Mas seus protagonistas chatos e sem carisma e trama boba e mal desenvolvida infelizmente impossibilitarão novas incursões neste universo rico e cheio de possibilidades. O jeito é recorrer ao material original e conhecer os verdadeiros Valerian e Laureline nas páginas.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valerian and the City of a Thousand Planets)
2017 - França - 138min
Ficção científica, Aventura, Ação
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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O Estranho que Nós Amamos

Mulheres isoladas pela guerra tem seu cotidiano alterado pela chegada de um soldado ferido. O argumento de The Beguiled (sem título no Brasil), livro de Thomas Cullinan, tem um potencial enorme à misoginia. Sua primeira adaptação para as telas de 1971, está longe de ter um ponto de vista feminista. Chegamos então à 2017, quando a segunda versão para o cinema de O Estranho que Nós Amamos chega, com intenções específicas pelas mãos de Sofia Coppola.

No terceiro ano da Guerra Cívil estadunidense, um soldado da união ferido é regatado por um grupo de mulheres sulistas de um internato para moças. A chegada do "inimigo", desperta, curiosidade, medos, dúvidas, desejos e intrigas em seu cotidiano entorpecido pela guerra.

É mudando o ponto de vista, agora vemos a história através das mulheres, que a diretora começa a dar nova forma à história. Sim, a chegada do cabo John McBurney (Colin Farrell) é o que coloca a história em movimento, mas são as moradoras do internato comandado por Martha Farnsworth (Nicole Kidman) que conduzem a trama. Assim as duas professoras e cinco alunas, todas de personalidades distintas e bem definidas reagem cada uma à sua maneira à presença do estranho. O foco maior está nas figuras da madura Sra. Farnswoth, a remprimida professora Edwina (Kirsten Dunst) e a adolescente "rebelde" Alicia (Elle Fanning), mas todas as moças tem seu tempo de tela e função na trama. É a pequena Amy (Oona Laurence), por exemplo a responsável pela decisão de resgatar o soldado ferido.

Além do conflito imediato - salvar uma vida ou entregar o inimigo às autoridades? - cada uma das mulheres tem uma relação diferente com o visitante, do qual nunca temos certeza completa das intenções. Efeito tanto, da escolha de focar na visão das mulheres, quando da forma mais contida com que o personagem é apresentado. Eficiente no papel, Farrell mantém o público em alerta constante, ao apresentar comportamentos distintos de acordo com sua "parceira de cena". Romântico, ameaçador, galanteador, um homem seriamente traumatizado, nunca realmente compreendemos quem é John McBurney, e isso aumenta a tensão em torno de sua presença. E de fato não é importante já que o interesse aqui é a percepção das mulheres à ele.

Quem fica com o destaque aqui é Dunst, que transmite apenas com olhar e expressões sutis, todo o turbilhão de emoções por baixo da expressão contida da contida professora. Já Fanning é muito bem sucedida ao criar uma adolescente indomável e cheia de curiosidade quanto a sua sexualidade "recém despertada". Nicole Kidman que soa fora de tom em alguns momentos, falhando em imprimir um pouco mais de força e experiência de uma pessoal responsável por várias jovens.

Cenários sem vida, figurinos e fotografia em cores mais lavados criam uma atmosfera de desesperança constante, que ganham um pouco de vida conforme as moças se envolvem com seu hospede. Sem no entanto, perder o tom melancólico e sombrio destas vidas condenadas pela guerra. O design de produção impecável é complementado pela trilha sonora minimalista, que acerta ao usar o canto dos pássaros para criar um ambiente bucólico e ao mesmo tempo isolado do resto do mundo. Vale lembrar que o isolamento é fator determinante para o desenrolar da trama, já que afeta o comportamento de todos na casa.

Muito bem executado e sem pontas soltas O Estranho que Nós Amamos é um filme conciso e intimista. Eficiente em explorar os dilemas dos moradores desta "casa das sete mulheres", com um discurso feminista e inteligente nas entrelinhas. Em plena era do "remake", quando a sensação geral é de que nada mais é "sagrado" ou no mínimo suficiente. Eventualmente, somos surpreendidos por obras que precisam, ou mesmo mereçam, um novo olhar. Sofia Coppola ofereceu uma versão melhor e mais eficiente da história que chama atenção pela sua franqueza.


O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled)
2017 - EUA - 93min
Suspense, Drama
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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Game of Thrones: fã de carteirinha#27

É hora de deixar o "mimimi" de lado e trazer de volta a série Fãs de Carteirinha com seu tema mais produtivo: Game of Thrones. A participação de Ed Sheeran no primeiro episódio da sétima temporada gerou reações exageradas de amor e ódio. Com isso muita gente não prestou atenção na música que o cantor britânico entoava.

Hands of Gold é uma canção dos livros, da época em que Tyrion precisava se esgueirar pelas ruas de Porto Real para se encontrar com Shae, que na versão das páginas nunca foi criada de Sansa. O bardo Symon Silver Tongue (Symon Língua de Prata na versão nacional), descobre sobre o romance e tenta usar música chantagear o anão. Não dá muito certo para ele!

Para quem quer ouvir a canção inteira uma versão interessante é a de Petter Hollens, que costuma fazer versões que usam apenas sons produzidos pela voz.



A música é sobre Tyrion, mas com essa parte de "mãos de ouro", bem que serve também para outro irmão Lannister, não é mesmo?

E já que estamos falando de fãs, vale contar que Maisie Williams, intérprete da Arya. é fã de Sheeran. Por isso os produtores resolveram chamar o cantor para contracenar com ela. Então deixe o "mimimi" de lado, e imagine como a garota deve ter ficado feliz.

Leia mais sobre Game of Thrones e outros posts de Fãs de Carteirinha.
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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Planeta dos Macacos: A Guerra

Humanidade esta é a chave para dominar o mundo na reinvenção da franquia Planeta dos Macacos. São aqueles que mantém a humanidade apesar das circunstâncias que garantirão o futuro da espécie. Nem preciso dizer, não são os humanos que conseguem tal proeza. Planeta dos Macacos: A Guerra começa alguns anos após os acontecimentos do longa anterior, O Confronto. E na verdade não trata de uma guerra, mas das consequências dela.

Após anos de conflitos constantes, a reconciliação entre humanos e símios parece impossível e ambos os exércitos estão combalidos e desesperançosos. Quando o incansável Coronel (Woody Harrelson) leva à batalha ao extremo, César (Andy Serkis) precisa encarar não apenas as responsabilidades de um líder, mas também o seu desejo de vingança.

Parece uma premissa simples demais, mas não é. Além da luta propriamente dita, o filme avança o arco de César. Mais velho, líder de um povo cansado pela guerra ele se vê em um dilema entre seus princípios e a dor. É contestado por membros do clã, aconselhados por outros e precisa equilibrar razão e emoção para garantir a sobrevivência da espécie.

Do outro lado da batalha os humanos cheios de ódio pelo que perderam - vale lembrar que a maioria da população foi dizimada pelo vírus símio - tem cada vez  menos compaixão e livre arbítrio. Chega a ser curioso observar o exército do comandante urrando e respondendo aos seu comandos automática e sincronizadamente, como uma manada bem treinada.

A escolha por desenvolver temas mais complexos, as dificuldades de cada grupo e a jornada de César pode desagradar aqueles que esperavam por um filme majoritariamente de ação. Afinal, além de ter guerra no título, o filme é a sequencia de uma produção que termina com a guerra declarada após um primeiro confronto grandioso. Mas, saltamos todo o período de guerra para acompanhar o desfecho, que vai determinar o futuro de ambas as espécies. E isso é infinitamente mais rico e interessante do que dois grupos digladiando na floresta.

Nada funcionaria no entanto, se os protagonistas não fossem verossímeis. Felizmente a tecnologia já eficiente nos longas anteriores continua evoluindo. Mesmo com poucos humanos em cena - este filme é o mais focado na sociedade símia, mesmo porque dos homens está em decadência - o realismo da interação é mantido. A pequena Amiah Miller, humana adotada por Maurice (Karin Konoval) parece realmente estar sendo carregada por um orangotango por toda a projeção. Além disso, há o trabalho de ator por trás da computação gráfica, boa parte do elenco retorna do filme anterior, parece confortável com a tecnologia e é eficiente em expressar os sentimentos dos personagens através do CGI. O novato Steve Zahn também chama atenção com seu divertido Bad Ape, o primeiro a usar roupas. O destaque fica é claro, para Serkis, já que a evolução de Cesar exige mais a cada nova aventura.

Além da bastante expressiva Amiah Miller o único outro destaque humano é Harrelson. Seu Coronel cheio de rancor tem como único objetivo na vida exterminar os macacos. E embora tenha um motivo não apenas plausível, mas importante para o universo da franquia justificando todo o ódio do personagem, ele ajuda e muito a aumentar ainda mais nossa empatia com seus alvos. Não que seja preciso ajuda para torcer para os símios, especialmente para aqueles que acompanham o reboot desde que César era um bebê.

Indo na contra-mão das expectativas (no bom sentido), Planeta dos Macacos: A Guerra abre mão do excesso de ação, e de cenas grandiosas que beiram a megalomania dos filme do gênero atualmente, para entregar uma história mais rica. Bons personagens, arcos bem desenvolvidos e explicações plausíveis criam uma origem mais concisa e interessante para o outrora confuso universo da franquia símia. O longa também aponta que "humanidade" pode não está necessariamente atrelada à condição humana e abre caminho para o nascimento sociedade complexa que comanda o Planeta dos Macacos original.


Planeta dos Macacos: A Guerra (War For The Planet Of The Apes)
2017 - EUA - 140min
Ficção científica, Ação, Aventura
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