terça-feira, 25 de abril de 2017

Guardiões da Galáxia Vol.2

O primeiro filme foi uma aposta alta, mas Guardiões da Galáxia tirou a sorte grande e acertou não apenas ao apresentar personagens pouco conhecidos, mas em transformá-los em ícones adorados instantaneamente. Com o sucesso da primeira empreitada, o volume 2 chega aos cinemas com uma única obrigação, desenvolver seus personagens e universo.

Agora conhecidos como Guardiões da Galaxia, Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoë Saldana), Rocket Raccoon (Bradley Cooper), Groot (Vin Diesel, inclusive na versão dublada) e Drax (Dave Bautista), são mais que uma equipe que atravessa o universo para protegê-los. Eles se tornaram uma família, disfuncional, não tradicional e cheia das inseguranças e dúvidas de uma família recém-formada. É esta temática familiar que guia a trama, seja com conflitos entre esta nova família, seja através da busca da paternidade de Quill ou da conturbada relação entre as irmãs Gamorra e Nebula (Karen Gillan).

Mas não se engane, não é porque consegue espaço para discutir as relações entre os personagens, que a produção deixa de ser a aventura exagerada e cheia de bom humor que arrebatou os cinemas em 2014. É verdade, há respiros maiores entre as cenas de ação se comparado ao primeiro filme. Essas pausas no entanto, são muito bem situadas para o desenvolvimento da trama. Assim, como as piadas e até a trilha sonora, tudo é bem pensado e tem sua função no quadro maior. Nada é gratuito. O resultado é um roteiro coeso em um universo e tom particulares, que já viraram característica desta vertente do universo cinemático da Marvel.

Entre as novidades, Kurt Russel cria um personagem marcante ao encarnar Ego. Enquanto Sylverster Stallone surpreende pela naturalidade com que se insere neste universo colorido. Elizabeth Debicki apresenta uma nova raça alienígena importante para este universo, com a soberana dourada Ayesha. E Pom Klementieff, diverte como a ingênua Mantis e sem perder o tom das piadas, especialmente aquelas compartilhadas com o Drax. 

O filme ainda traz de volta o mercenário Yondu (Michael Rooker), que roubou as cenas em que apareceu no primeiro longa, e o faz novamente no Vol 2, onde ganha mais importância. O mesmo vale para a irritada Nebula (Nebulosa na versão dublada)
.
Para quem está curioso: sim, Groot ainda é um bebê, adorável e insano. Afinal toda boa família precisa de uma criança com que todos se preocupem - inclusive os expectadores. Já Rocket tem que aprender a não ser mais um lobo solitário. Peter e Gamorra ainda tem aqueles assuntos inacabados desde o filme anterior.

Tudo isso só é possível, pois o filme não tem a obrigação de conectar grandes detalhes do universo Marvel. É claro que ele está inserido no universo, seus personagens devem aparecer nos próximos longas dos Vingadores, mas o filme não está preso a estas narrativas futuras. Esta bem vinda "liberdade" permite que o filme abrace e aprofunde o universo louco desbocado e colorido que apresentou no primeiro longa. Sem deixar de lado easter-eggs, e referências - do universo Marvel e da cultura pop - suficientes para agradar até os fãs mais exigentes.
O design de produção aposta ainda mais nas cores e diversidade, sem perder a qualidade e ainda mesclando de forma convincente CGI e maquiagem. O 3D não é indispensável, mas é sempre eficiente em filmes no espaço, com lugares fantásticos e muitas cores. A trilha sonora, saída direta do "Awesome Mix Tape vol 2", deixada pela mãe de Quill no primeiro filme, é escolhida a dedo, para acrescentar à narrativa e ainda ser recheada de bons clássicos.

Guardiões da Galáxia Vol.2, na verdade tem apenas um grande desafio: ser tão eficiente quanto o longa original, mantendo o tom anárquico, louco e coeso apesar de tudo. A produção acerta em cheio ao desacelerar a ação em prol dos personagens. Se ainda não gostávamos de algum deles, isto acaba neste filme, que é acima de tudo divertido!

Guardiões da Galáxia Vol.2 (Guardians of the Galaxy vol. 2)
2017 - EUA - 137min
Aventura/Ficção-cientifica

P.S.: Não saia antes do fim dos créditos, o longa tem nada menos que CINCO cenas pós créditos! E claro, procure por Stan Lee, como sempre.

Leia a crítica do primeiro Guardiões da Galaxia
Leia Mais ››

sexta-feira, 21 de abril de 2017

DC's Legends of Tomorrow - 2° temporada

A série de viagem do tempo da DC tinha dois grandes desafio em seu segundo ano. Primeiro ajustar a nova formação da equipe, e depois lhes dar um objetivo tão importante quanto salvar o mundo de um vilão milenar. E se possível, fazer isso em meio à aventuras, muitas cenas de ação em diferentes épocas de nosso planeta.

SJA: heróis das antigas...
Com a morte de Leonard Snart (Wentworth Miller) e a saída de Mulher-Gavião (Ciara Renée) e Gavião Negro (Falk Hentschel), o público já esperava uma nova temporada com equipe reduzida, e introdução de novos membros. Qual não foi a surpresa, quando é um novato Nate Heywood (Nick Zano) que inaugura a temporada ao reunir o grupo misteriosamente espalhados em diferentes épocas. O historiador que percebe o "sumiço" das lendas, também é uma das conexões com a Sociedade da Justiça da América. A SJA aprece bem menos do que imaginado, mas oferece a outra novata entre as lendas, Amara (Maisie Richardson-Sellers) é uma Vixen, bisavó daquela que conhecemos em Arrow.

Enquanto isso, na equipe antiga, Sara Lance (a pouco expressiva Caity Lotz) assume o papel de capitã, quando não descobrem o que aconteceu com Rip Hunter (Arthur Darvill). Ray Palmer (Brandon Routh), o Atom, o Dr. Martin Stein (Victor Garber) e Jefferson "Jax" Jackson (Franz Drameh) que juntos formam o Nuclear e Mick Rory (Dominic Purcell) estão de volta, com a dinâmica que já funcionou no primeiro ano. Acreditando que seu trabalho é manter o "tempo" seguro, já que acabaram com seus guardiões anteriores.

Legião do Mal: é por isso que o Cisco dá os nomes!
Equipe montada é hora de preparar a ameaça, e a proposta é suspeita: Eobard Thawne (Matt Letscher) vilão da primeira temporada de Flash, Damien Darhk (Neal McDonough) rival de Arrow no quarto ano e Malcolm Merlyn (John Barrowman), malvado recorrente do universo das séries, se reúnem para formar a "Legião do Mal" - criatividade passou longe desse nome! A proposta é duvidosa, e nunca perde a sensação de que reciclaram antagonistas. Entretanto, a química entre os atores é boa, assim como a disputa de ego dos personagens. Uma pena, que tenham tão pouco tempo em tela, para desenvolvê-las.

Malvados e mocinhos definidos, a serie parte para o que realmente interessa, as viagens no tempo. Mais livre que no ano anterior a trama visita mais épocas, encontra mais personagens reais e fictícios inundando os episódios de referências. As consequências dessa "liberdade", antes cerceadas pelos Mestres do Tempo, resultam em conceitos como, aberrações do tempo, erros, paradoxos e realidades paralelas, alguns corrigíveis, outros nem tanto. É claro, muitos "conceitos temporais", e o vai-e-vem na história pode deixar confuso, não iniciados no gênero e distraídos em geral.
Há espaço também para participações especiais do elenco das outras séries. Além de uma pausa para o supra-mencionado crossover Invasion, que reuniu as quatro séries de heróis da CW.

A grande falha fica por conta da escolha de Sara como capitã da Waverider (a máquina do tempo) e consequentemente da equipe. Embora a personagem tenha um histórico para se tornar interessante, sua inexpressiva intérprete não consegue alcançar o potencial dramático que ela oferece. Também não consegue ser líder e integrante da equipe ao mesmo tempo, parecendo sempre a mais deslocada nas cenas em grupo. A despedida de Rip Hunter, que participa desta temporada, mas deixa de ser capitão e se despede da série, não faz muito sentido (ele é dono da máquina, e estudou a vida toda para isso, é como se Doctor Who decidisse abandonar a TARDIS com um companion qualquer), especialmente após um episódio que mostra sua relação com Gideon, computador da nave. Além de lançar uma preocupação quanto ao próximo ano, mantendo a menos carismática Sara como líder do grupo por mais tempo.
Já as falhas e informações confusas, inerentes a narrativas com viagem no tempo, ainda existem. Mas em menor quantidade que na primeira temporada. Tudo facilmente relevado pela suspensão de descrença e pelo divertido caos que as viagens criam. A série não tem receio de brincar com as possibilidades, mesmo que isso custe um pouco mais de esforço do expectador.

DC's Legends of Tomorrow, lembra cada vez mais uma versão "super-heróica" de Doctor Who. Sem um protagonista carismático, mas com vários personagens a quem se apegar. Aventuresca, divertida e bem produzida, é uma pena que seja a série mais subestimada da franquia. Quem sabe quando chegar na Netflix, com a possibilidade de maratonas, o público descubra seu potencial.

A segunda temporada de DC's Legends of Tomorrow tem 17 episódios. A série é exibida no Brasil pela Warner Channel e chegou ao seu fim na última quinta-feira (20/04).

Leia mais sobre DC's Legends of Tomorrow, e acompanhe também Flash e Supergirl.
Leia Mais ››

terça-feira, 18 de abril de 2017

Punho de Ferro - 1ª temporada

O herdeiro da fortuna das Indústrias Rayne, Daniel Rand (Finn Jones) é o último membro a chegar no universo dos Defensores . E o herói que responde pelo nome de Punho de Ferro, chega não apenas de um longo treinamento em K'un-Lun, mas de uma complexa tentativa de equilibrar seu universo com a Nova York "realística" da Marvel na Netflix.

Dany Randy foi dado como morto há quinze anos, quando o avião em que estava com seus pais caiu no Himalaia. Mas o garoto de dez anos foi salvo e cresceu na cidade mística de K'un-Lun. Lá ele aprendeu a canalizar o seu chi e se tornou o Punho de Ferro, o grande protetor da cidade contra o Tentáculo. Em 2017, ele retorna a Nova York e tenta retomar seu posto de herdeiro. Para isso tem de convencer seus amigos de infância Joy (Jessica Stroup) e Ward Meachum (Tom Pelphrey) de quem é. No processo Daniel descobre que tem uma missão bem maior na cidade. Se você está acompanhando DemolidorJessica Jones Luke Cage, já deve ter feito a conexão: o Tentáculo está em NY.

Reaver o que é seu de direito, vingar os pais, se reunir a família que restou, os Meachum, derrotar o Tentáculo, proteger K'un-Lun... desde que pões os pés descalços na cidade os objetivos do Punho de Ferro mudam muito. Isso se dá em parte porque Dany no fundo ainda é um garoto, que apesar de transformar em uma arma viva, ainda não parece ter discernimento para empenhada. Mas também, pela hesitação da produção em mergulhar à fundo no misticismo e mitologia que o personagem pode oferecer.


Esta é a última série antes de defensores, já conhecemos bem este universo e o que os humanos "melhorados" (com instintos aguçados, super-força e invulnerabilidade) podem fazer. Mas o que alguém com verdadeiros poderes poderia trazer pelo time? Essa é a questão. Dany ganhou o título, mas ainda não é o Punho de Ferro propriamente dito - nem tem uniforme! Essa inexperiência, e a lentidão desta história de origem pode frustar quem esperava mais da "série de kung-fu" da Marvel.

Assim, com as mudanças de objetivos, e consequentemente de vilões, a série oscila bastante. Arriscando perder expectadores em seu miolo, em meio à salas de reuniões e disputas burocráticas. Já ação é boa, mas nada diferente do que já foi apresentado em Demolidor. Era de se esperar algo mais de um personagem que seria o melhor lutador de um mundo místico, mesmo seus poderes são pouco usados. Como disse antes, ele ainda está aprendendo à usá-los.

O ritmo no entanto beneficia quem nunca ouviu falar do personagem dos quadrinhos, ou ainda quem resolveu começar a acompanhar as séries por Punho de Ferro. Enquanto Jones se esforça para entregar um protagonista carismático. Já os easter-eggs e muitas referências devem manter os já iniciados menos entediados. Assim como a integração da série no universo, especialmente com a presença de Claire Temple (Rosario Dawson). A Enfermeira Noturna, é de longe a melhor em cena, funciona como Nick Fury deste universo e parece ter consciência disso, ao reclamar que vive "esbarrando" nestes vigilantes.

Punho de Ferro, parece ter medo de abraçar o misticismo e afastar não iniciados, ou ainda destoar dos "mais pé no chão" Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage. Diverte, mas desperdiça seu potencial, tanto temático, quanto em relação às cenas de ação. Ao menos, resolve parte destes objetivos, deixando Dany livre para ser o herói protetor para que foi treinado. Esperemos para ver como ele aparece em Defensores, e torcer para que sua interação com o resto da equipe compense a economia "mistica" deste primeiro ano.

A primeira temporada de Punho de Ferro tem 13 episódios todos disponíveis na Netflix. A série que reune os heróis urmanos da Marvel, Defensores terá apenas 8 episódios que devem chegar à plataforma de streaming em 18 de Agosto de 2017.


Leia mais sobre sériesNetflix. Ou descubra as outras parcerias do serviço de streaming com Marvel, DemolidorJessica Jones Luke Cage.
Leia Mais ››

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Poderoso Chefinho

Tim tem sete anos, e sua vida é perfeita! Filho único de pais que além de muito trabalhadores, são extremamente atenciosos com o menino (coisa difícil de equilibrar em nossa sociedade!). O casal ainda arranja tempo de estimular a imaginação do pequeno, que vive envolto nas mais variadas aventuras. Mas, como tudo que é bom dura pouco, Tim vê seu mundo perfeito vir à baixo com a chegada de um novo membro na família, o irmãozinho. 

Se um recém-nascido naturalmente já rouba as atenções de todos a sua volta para Tim a coisa é ainda mais complicada. O  Bebê (Alec Baldwin), não apenas roubou todo o amor, tempo e disposição de seus pais, como também parece ter segundas intenções malignas. Afinal, ele chegou de táxi, usa terno, sabe falar e andar. É claro que apenas o, agora, irmão mais velho consegue ver essas proezas. Tudo podia não passar apenas da fértil imaginação de Tim, mas não.

O Bebê é um agente infiltrado na família, com uma missão secreta de importância vital para a humanidade. Adivinhou quem pensou que para cumprir a tarefa a dupla teria que trabalhar junta. Afinal com a missão cumprida, o bebê voltaria com louros para sua agência e Tim voltaria a ter sua vida perfeita de antes.

Sim, a trama é rocambolesca a ponto de duvidarmos de sua capacidade de manter o interesse dos pequenos. Entretanto, as piadas físicas, o universo colorido, cheio de referências ao universo infantil (nos créditos inclusive há um trecho inteiro de agradecimento a empresas de brinquedos reais) e as cenas de ação, em sua maioria saídas da imaginação de Tim, mantém a adrenalina dos pequenos elevada.

Já os pais que acompanharam os pequenos na sessão podem ocupar seu tempo buscando uma quantidade excessiva de referências espalhadas ao longo do film. Falas de o Senhor dos Anéis, cenas inspiradas em Matrix (mas não no bullet-time, ponto pro filme), Indiana Jones, Marry Poppins e até sequencias que lembram filmes de terror, tem citações para todos os gostos, todo o tempo! Isso, se conseguirem abstrair o fato de que todos os adultos deste universo são absurdamente desatentos.

Além de Baldwin como o "Poderoso Chefinho", o elenco original traz Tobey Maguire, Steve Buscemi, Lisa Kudrow e Jimmy Kimmel. A versão nacional traz Giovanna Antonelli como a mãe dos protagonistas.

O Poderoso Chefinho tem qualidade de produção da Dreamwoks. A trama não é a mais original de todas, mas diverte e até traz alguns momentos surpreendentes. E até ensaia uma crítica ao consumismo, sem confundir os pequenos, apesar dos muitos detalhes. Caso alguém não compre a ideia da muito elaborada da trama, para um filme infantil, sempre há a possibilidade de tudo não passar da imaginação fértil de Tim. Afinal é ele, já adulto (com a voz de Maguire) quem narra a trama.

O Poderoso Chefinho (Boss Baby)
2017 - EUA - 135min
Animação
Leia Mais ››

segunda-feira, 10 de abril de 2017

13 Reasons Why

O argumento desta série da Netflix, baseada no livro homônimo de Jay Asher (que no Brasil tem o título de Os 13 Porquês), é no mínimo intrigante. Uma adolescente que cometeu suicídio deixa para trás um registro dos 13 motivos que a fizeram desistir de viver. Por trás do mistério principal, a intenção assumida de abrir discussões sobre assuntos que ainda são tabus, ou no mínimo complicados em nossa sociedade.

Já faz alguns dias desde a morte de Hannah Baker (Katherine Langford), quando Clay Jensen (Dylan Minnette) recebe um pacote com sete fitas K7 e um mapa. Após resolver um conflito tecnológico – fitas cassete em 2017! rs –, o adolescente começa a ouvir os depoimentos da colega de escola. Divididos em 13 lados das tais fitas, um para cada motivo.

A distribuição parece ser uma das escolhas mais certeiras da adaptação. Afinal, 13 motivos = 13 gravações = 13 episódios, um número tradicional de capítulos das séries do serviço de streaming. E sim, estender a discussão e abrir espaço para mais pontos de vista é realmente uma boa escolha, mas talvez treze episódios tenham sido demais.

Enquanto nos livros Clay escuta as fitas em uma única noite, aqui ele leva dias. Digere cada um dos motivos e confronta seus “motivadores”. Em um impacto inicial, ou em motivos mais “complexos”, essa hesitação até faz sentido porém em outros momentos o conflito do rapaz soa repetitivo e desnecessário. Mesmo sabendo que está na lista, o jovem não termina de ouvir as fitas antes de começar a confrontar os outros “culpados” – mesmo com todos os personagens implorando repetidamente para que ele escute tudo antes de tomar decisões. Quando nós expectadores começamos a engrossar este coro de “escuta logo!”, pode ter certeza, estes são os momentos de enrolação.

Não me leve a mal, o tempo extra que o protagonista – que na verdade é Clay, e não Hannah – leva para ouvir as fitas é uma boa escolha. Podemos acompanhar a repercussão na escola, entre pais, alunos e professores. Cada uma das personagens que motivaram a adolescente ganha mais espaço e camadas, assim como os motivos em si ganham mais tempo de discussão. O problema é que o tempo necessário para contar e discutir uma briga entre amigas não deveria ser o mesmo dedicado aos temas “suicídio” ou “assédio”.

Encontrar os episódios designados como “fita 1, lado A”, ao invés do tradicional “temporada 01, episódio 01”, é uma graça. Mas a necessidade de padronizar o tempo de cada discussão, causa um desequilíbrio narrativo que torna o miolo da produção arrastado, e deixa seu episódio final com muita coisa para resolver, já que tem que finalizar a história como um todo além das fitas. Mas não é o ritmo da narrativa ou qualidade das atuações e produção (que são ótimas, aliás) que está chamando a atenção do público. São os motivos, e a coragem de abordá-los sem pudores ou censura.

Bullying, cyberbullying, violência doméstica, assédio sexual, estupro, depressão e, claro, suicídio. Apresentados em ordem crescente de destruição tanto de Hannah, quanto dos supostos culpados. Vale citar que Clay é apenas um dos destinatários da fita, os demais “causadores” da morte da garota também estão gradualmente tomando consciência de seus atos, e consequentemente mantendo a discussão sobre cada um deles ativa.

E por falar em culpa, é aqui que devemos ter um olhar mais atento. Assim como na vida real, os personagens nem sempre tem consciência de que seus atos sejam nocivos a terceiros, ou os cometeram com a intenção de atingir alguém. Mas a série coloca no mesmo patamar, uma pessoa que cometeu bullying propositalmente e outras que apenas fizeram escolhas equivocadas em momentos que, para Hannah eram críticos – mas para eles, não. A própria série assume isso, quando alega que aquela é “a verdade de Hannah”, e que algumas coisas podem não ter acontecido exatamente como a percepção que ela teve.

Não estou tentando amenizar os motivos que levaram a moça ao suicídio. E concordo que podemos sempre estar mais atentos ao próximo, melhorar a forma como tratamos uns aos outros. Mas essa forma de culpabilização generalizada, apesar de fazer sentido para a vítima (para Hannah, tudo está interligado), para expectadores mais influenciáveis e fragilizados pode passar ideias erradas. Estes podem acreditar que todos os atos que o magoaram foram de alguma forma proposital, e, pior, de que o seu suicídio pode ser uma forma de vingança, ou justiça. Afinal, era assim que a garota via o mundo a sua volta.

É essa possível interpretação equivocada que tenho visto pouca gente discutir sobre a série. Talvez por causa da coragem temática da série (que é necessária), talvez porque quem a esteja discutindo publicamente esteja mais preparado para interpretá-la e não cair neste equívoco; porém não podemos ignorar que existe a possibilidade de a mensagem errada ser recebida. Ao menos a produção não romantiza o suicídio de Hannah, ou qualquer outra violência mostrada em cena. Tudo é mostrado de forma crua, visceral e incômoda, para que o expectador chegue ao menos perto do impacto que estes eventos podem ter na vida de alguém.

O que nos leva de volta a produção em si. A escalação de um bom elenco é fundamental para levantar de forma verossímil tantas discussões complicadas. E nisso, a série se sai muito bem – especialmente considerando que grande parte do elenco é bastante jovem. Os destaques ficam com o carismático Minnette, que carrega a história, e Langford, que encara cenas complexas de forma eficiente. Kate Walsh e Brian d’Arcy James impressionam ao dar vida a reações realistas e distintas de pais em busca de explicações para a morte da filha.

As mudanças temporais, entre as memórias de Hannah e o presente, são simples e por isso funcionam. Com uma edição que flui de um momento para outro em um mesmo take, a diferença está na mudança de temperatura de cores: mais quentes no passado quando havia esperança e frias no presente quando as ações são irremediáveis (além de um machucado propositalmente incurável na testa do protagonista – nada sutil, mas eficiente).

13 Reasons Why, assim como o livro em que é inspirada abre importantes discussões que deveríamos encarar com mais frequência na sociedade. Sua produção não é livre de falhas, mas funciona. E os ganchos em abertos para uma segunda possível temporada nos faz questionar o nível de altruísmo da produção – ainda é um produto e ainda visa o lucro. Sim, é uma série que todos devem assistir, mas com cautela e muita discussão para que nenhuma mensagem seja mal interpretada ou seja perdida no processo.

Existem especulações sobre uma segunda temporada, mas nada foi confirmado ainda. O primeiro ano da série tem 13 episódios, todos já liberados na Netflix.  
Texto originalmente publicado no blog Roteiro Adaptado
Leia Mais ››

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Legion - 1ª temporada

Há quem diga que o mercado de adaptações de quadrinhos para a TV está ficando saturado e repetitivo. Que as séries estão muito parecidas, variando apenas entre as fórmulas do universo DC na CW (Warner Channel no Brasil), e das séries da Marvel na Netflix. O que de forma alguma significa que estas produções sejam ruins, mas que há uma necessidade de novidade. Se você é uma dessas pessoas à procura de um frescor televiso, Legion é a série para você.

 Baseada nos quadrinhos dos X-Men, a série se concentra na história de David Haller (Dan Stevens, de Downtown Abbey e o novo A Bela e a Fera), diagnosticado ainda na adolescência com esquizofrenia. Mas, um incidente em sua clínica abre uma nova possibilidade para sua realidade de ouvir vozes: talvez não seja um distúrbio e sim um poder. O evento chama a atenção de amigos e inimigos para sua existência, e descobrir quem é quem nessa nova realidade é apenas um dos desafios do personagem principal (também conhecido como Legião) e dos expectadores.

Criada por Noah Hawley (da série Fargo), a produção utiliza tanto os complexos poderes quanto a condição psicológica de David para contar a história. O resultado é um mosaico a ser montado com paciência pelo expectador que a cada episódio tenta descobrir o que é real, e o que é delírio. Após viver anos acreditando que era louco, e tendo os sentidos entorpecidos por drogas, lícitas e ilícitas, o próprio protagonista não tem certeza da realidade, ou mesmo em quem confiar, inclua aí suas próprias memórias e pensamentos.

A produção aproveita esta incerteza e a incorpora nas memórias, flashbacks, visões, vozes e outras habilidades complicadas do personagem. Tornando a história um grande exercício de linguagem e um desafio ao expectador, convocado a entender a loucura de David, literalmente.

O visual da produção também abraça essa loucura, e não se envergonha de usar cores vibrantes, jogos de luzes e até psicodélica para extrair a sensação certa de cada momento, seja confusão, medo ou histeria. A estética também é responsável por desconfigurar a noção de época. Um visual retrô e alta tecnologia combinados, não apontam em que momento da cronologia dos mutantes nas telas a série se encontra. Uma excelente escolha considerando a confusa linha do tempo dos X-Men.

E por falar no universo mutante, sim Legion faz parte dele. Inclusive tem produção de Singer diretor de vários longas e produtor da franquia. Entretanto, a série caminha por conta própria, não há conexões ou personagens em comum na primeira temporada. Assim como não é confirmada se a origem de David será a mesma dos quadrinhos, onde é filho de Charles Xavier. Apesar de Patrick Stewart já ter afirmado que toparia participar da série, e participações especiais não tenham sido descartadas, o interesse por manter a série impendente continua.

O destaque no elenco fica por conta de Stevens e Aubrey Plaza (Lenny), curiosamente (ou não) os dois interpretes que precisam mergulhar mais na loucura. O resto do elenco, que conta com Rachel Keller, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Jean Smart, Jemaine Clement e Hamish Linklater, apenas os acompanha. Uns com mais eficiência do que outros, mas nada que comprometa seriamente o desenvolvimento da trama.

Criado em 1985 por Chris Claremont e Bill Sienkiewicz, Legião é um dos mais complexos e poderosos mutantes do universo dos X-Men. Legion aproveita essa complexidade para fugir do lugar comum e criar algo uma abordagem diferente, narrativa e visualmente, das adaptações de quadrinhos que abarrotam as telas atualmente. Tudo isso sem subestimar o expetador, ou ter medo de ser complexa e exagerada quando preciso. Um bem-vindo frescor ao gênero.
A segunda temporada de Legion já foi confirmada, com previsão para 2018. O primeiro ano teve oito episódios e foi exibida no Brasil pelo FX com apenas um dia de diferença da transmissão estadunidense.

Leia mais sobre os X-Men ou confira as primeiras impressões de Legion!
*Crítica originalmente publicada no blog Roteiro Adaptado
Leia Mais ››
 
Copyright © 2014 Ah! E por falar nisso... • All Rights Reserved.
Template Design by BTDesigner • Powered by Blogger
back to top