quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Grande Muralha

Então, em um belo dia em alguma sala de executivos uma conversa parecida com esta deve ter acontecido:

- Precisamos de um blockbuster, algo novo, grandioso impressionante, e que agrade ao maior número de pessoas possível.
– Poderíamos fazer um filme com tudo que as pessoas estão curtindo no momento, tipo aliens, estão sempre na moda. Fantasias medievais estão em alta, com grandes batalhas e exércitos numerosos. Mulheres na liderança também estão em alta, aquele “negócio de empoderamento”. E não se esqueçam da China, é um grande mercado. Coloca um mistério também. Ah, e os latinos precisam ser representados, então contrata alguém. Arremata com um astro de Hollywood e explosões que vai ser um sucesso.
– Perfeito manda para a sala dos roteiristas e eles que deem um jeito de juntar isso tudo!

Este é o único cenário possível que posso imaginar para justificar a existência de A Grande Muralha. No século XV, William Garin (Matt Damon) e Pero Tovar (Pedro Pascal) estão atravessando o mundo em busca de um lendário pó negro chinês que pode derrubar vários homens de uma só vez, quando se deparam com a grande imponente e misteriosa muralha da China. Esta, diferente do que acreditamos não foi construída para conter invasores humanos, mas para uma ameaça muito maior.

Além da muralha, os chineses também mantêm um enorme e bem equipado exército à postos na muralha para conter os ataques cíclicos dos monstros. Entre eles a Comandante Lin Mei (Jing Tian) responsável por um pelotão formado só por mulheres e com habilidades peculiares. Perdido por lá também está o “misterioso” Ballard (Willem Dafoe) um ocidental vivendo entre chineses.

William e Tovar é claro, são capturados e precisam convencer o exército de suas boas intenções. Eles o conseguem ao relatar o confronto com uma criatura misteriosa que tiveram pouco antes de chegar à muralha. Acontece que o monstro é o mesmo que os chineses combatem: seres alienígenas que atacam a cada 60 ano e devoram tudo pelo caminho. Sim, a Grande Muralha da China foi construída para impedir ataques alienígenas. E sim, eu te dei um spoiler, mas não se preocupe, você deduziria isso após uns 15 minutos de projeção, mesmo com todo mistério que tentam criar.

Até seria crível esta função incomum para um dos maiores monumentos da humanidade, se o longa abraçasse de vez a fantasia. Ou melhor ainda, desassociasse a muralha da China e criasse um novo universo (funcionou para Westeros). Mas o longa não apenas insiste em se levar muito a sério como épico de guerra e abusa dos clichés e soluções mais óbvias.

Assim, a China tem uma fortificação monumental, um exército treinado por séculos exclusivamente para enfrentar o inimigo em questão, todo tipo de arma branca que você pode imaginar, e algumas que você não tinha pensado, gente louca o suficiente para saltar literalmente nos bichos e pólvora. Mas nada disso é suficiente, eles precisam de um mercenário ocidental caucasiano para lhes ensinar como matar os monstros que ele acaba de descobrir que existem. É impressão minha ou soa meio ofensivo para os chineses?

Tem também a tentação de roubar o pó negro, traição entre parceiros, a escolha e lutar pela honra, a jovem comandante que precisa se provar.... Ah! E escalar Willem Dafoe para interpretar aquele cara que você já sabe de só de olhar que não deve confiar, que ele faz sempre. Todas escolhas mais previsíveis possível.

As cenas de ação são bem filmadas, afinal foram realizadas por Zhang Yimou, diretor de Heroi (2002) e O Clã das Adagas Voadoras (2004), com orçamento hollywoodiano. Mas sem apego aos personagens caricatos e mal construídos, a emoção cai pela metade. A suspensão de descrença deixa de existir, tornando evidentes aquelas acrobacias impossíveis que costumamos deixar passar em outros filmes de ação.

A direção de arte também estava inspirada, criando elaboradas armaduras com cores diferentes para cada unidade do exército e uma china colorida e vibrante. Mas como já mencionei, o longa não abraça a fantasia. Assim as armaduras de múltiplas cores parecem uma versão chinesa dos Power Rangers. E em alguns momentos você vai se preguntar por que galerias de esgoto tem iluminação “estilo arco-íris”?

Power Rangers edição China Medieval
A Grande Muralha traz muitas coisas que adoramos e/ou estão em alta, amaradas por um argumento fraco. O desenvolvimento batido do enredo não ajuda, especialmente por priorizar a ação ininterrupta, e dedicando pouco ou nenhum tempo para ao menos tentar desenvolver os personagens. Fazer o espectador se importar com ao menos um deles para ter por quem torcer. Na tentativa de agradar e alcançar muitas pessoas, provavelmente vai conquistar pouquíssimas.

Honestamente, eu não esperava um grande enredo de A Grande Muralha. E entrei na sala escura pronta para encarar um filme pipoca, divertido e facilmente esquecível. E que surpresa, não vou esquecer deste filme tão cedo e dei muitas gargalhadas involuntárias durante a sessão. Infelizmente, não por bons motivos.

A Grande Muralha (The Great Wall)
EUA - 2016 - 104min
Aventura/Fantasia
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

The Crown

Não se sinta culpado por ainda não ter encontrado tempo de assistir The Crown, mas sinta-se culpado caso a série não esteja em sua extensa lista de produções da Netflix. Afinal, a série tem a proposta de contar a história de uma das figuras mais proeminentes da história mundial nas últimas décadas. E ela continua por aí à fazer história, Elizabeth II é a primeira monarca à comemorar Jubileu de Safira. Ao completar em Fevereiro deste ano 65 anos no trono.

Se tudo isso ainda não for suficiente para você The Crown já criou alarde ainda durante a produção, por ser a série original mais cara do serviço de streaming. Investimento bem feito que salta na tela ao longo de seus dez episódios.

Começamos à acompanhar a jornada de Elizabeth (Claire Foy) na ocasião de seu casamento com o Príncipe Philip (Matt Smith, o 11º Doctor) quando a jovem de 21 anos ainda não era o centro das atenções. É assim que, junto com ela acompanhamos os últimos anos de reinado de seu pai, e a vemos lentamente se tornar o pilar de uma nação. Ser coroada, aprender a "reinar", lidar com as responsabilidades e restrições de seu cargo, com os primeiros ministros, tentar equilibrar o papel de monarca, esposa, mãe, irmã e amiga (embora a monarca quase sempre vença) são algumas das dificuldades que vemos a protagonista enfrentar nesta primeira temporada.

Saltos de tempo, flahsbacks e ritmos diferentes para lidar com dilemas diferentes podem soar como instabilidade. A meu ver parece ser uma escolha da série de dar a cada tema o tempo e desenvolvimento que eles achem necessários, independente de desagradar alguns expectadores. Outro detalhe que pode incomodar é o excesso de didatismo para alguns temas. Particularmente, didatismo que acho necessário, afinal a Netflix esta espalhada por todo o mundo, e nem todo país tem uma família real. Muito menos, uma com a tradição normas e protocolos da realeza britânica, e mesmo os que a tem, podem não estar familiarizados com os dilemas da nobreza de 60 décadas atrás. O que me incomoda é apenas a instabilidade deste didatismo, o que pode nos deixar momentaneamente confusos, especialmente em relação às passagens de tempo.

É claro, apesar de se tratar de uma história real. A grande maioria das cenas, é romantizada considerando o âmbito privado das relações da família real. Mas os dilemas são verdadeiros, e o roteiro "sem amarras" neste sentido dá ao elenco muito com o que trabalhar. Assim, podemos acompanhar o admirável trabalho de Foy, ao transformar uma jovem doce, em uma monarca firme, conforme os desafios do reinado se apresentam. Enquanto isso Vanessa Kirby constrói o contraponto perfeito à rainha ao apresentar sua irmã, a Princesa Margaret, como um espirito livre, sem amarras disposto a seguir seus sonhos, embora ainda viva sob as mesmas rígidas tradições.


Os "whovians" que ocasionalmente se interessarem pela série por causa de Matt Smith vão se surpreender ao vê-lo da pele do "forçadamente contido" príncipe Philip. Longe da extravagante personalidade do Doctor, o consorte ainda é um homem de opinião forte e cheio de ideais modernos, forçado a viver literalmente um passo atrás da esposa na sociedade extremamente machista dos anos de 1950. Outro que chama atenção é John Lithgow compondo um Winston Churchill cheio de nuances. O experiente Primeiro-Ministro acredita que é o melhor para o reino, e inclusive para a muito jovem rainha. Entretanto, com o tempo se mostra ideológica e até fisicamente ultrapassado para o cargo.

Já a direção de arte, é onde provável e sabiamente foi gasto grande parte do polêmico orçamento é indispensável para nos transportar para a atmosfera da realeza em meados do século XX. Vale lembrar: não dá para alugar o palácio de Palácio de Buckingham como locação, logo quase tudo precisou ser recriado em toda sua grandiosidade e esplendor. Detalhismo que se estende aos figurinos e acessórios. Afinal precisamos acreditar que as jóias que Foy usa em sua coroação por exemplo são reais como as usadas pela verdadeira Elizabeth segunda. A reconstrução de época e mesmo a criação dos personagens são muito beneficiados por esse capricho. O já mencionado contraponto entre Elizabeth e Margareth por exemplo não seria tão impactante, se o figurinos de ambas não fossem tão opostos. Enquanto a rainha geralmente usa peças mais sóbrias e discretas, sua brilha como uma verdadeira princesa de contos de fadas com figurinos luxuosos e exuberantes.

The Crown é série obrigatória na sua listinha da Netflix e já começou a colecionar prêmios por seu esmero. A primeira temporada tem 10 episódios com cerca uma hora cada, todos disponíveis na plataforma de streaming. O segundo ano já está em produção.

Leia mais sobre séries e Netflix.

*Se você como eu, ficar curioso (e até com algumas dúvidas), quanto a família real britânica, suas tradições, história e até o encantamento que causam, recomendo que assista o documentário The Royals. Também disponível na Netflix, que abordam a vida na nobreza sob aspectos distintos, como casamentos, jovens e nascimentos em seis episódios temáticos.
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A Cura

Um jovem executivo em ascensão recebe sua primeira grande missão: buscar um dos donos da empresa em seu retiro curativo, para resolver problemas urgentes em Nova york. O Ambicioso Lockhart (Dane DeHaan) não hesita na hora de viajar para um remoto castelo nos alpes suíços, que abriga uma clínica cheia de mistérios onde gente rica vai em busca de uma cura milagrosa.

Caso você tenha conferido o gênero de A Cura antes de entrar na sala escura já deve ter adivinhado: ninguém nunca deixa a clínica. Supostamente porque encontram uma nova e maravilhosa vida lá. E quem iria querer deixar lugar tão maravilhoso?

O problema é que, assim como o argumento inicial, você provavelmente também vai adivinhar o grande mistério que envolve a clinica muito antes do que deveria. Isso porque o diretor Gore Verbinski (voltando ao terror após 15 anos, desde que comandou O Chamado) não apenas bebe da fonte de vários outros filmes do gênero, como as replica sem o menor disfarce.

Logo, não se surpreenda se por exemplo lembrar de O Iluminado enquanto o protagonista anda pelos simétricos e extensos corredores do centro de cura. Ou com a imediata falta de contato com o mundo exterior assim que se chega ao local, o comportamento dos funcionários e pacientes, e a lenda sobre o local que vai mudando e crescendo conforme o filme avança e um grande quebra-cabeças a ser resolvido.


E já que tem muitas referências como base Verbinski não economiza na hora de colocar os "medos" em cena. Nos tradicionais receio de morrer ou estar ficando louco, até bichos nojentos e medo do dentista. Tem cenas para incomodar todo tipo do expectador. Ao menos para isso, ele opta pela criação de suspense, ao invés dos sustos fáceis.

A fotografia com uma paleta pálida e sem vida, é um dos pontos fortes. É melancólica e sombria, mas nunca escura opção mais óbvia para produções do gênero. O outro é o bom elenco que faz o que pode, com seus papéis previsíveis. Jason Isaacs, Celia Imrie, Harry Groener e Mia Goth completam o elenco principal.

Caso você tenha visto pouquíssimos filmes de terror, A Cura pode até trazer algumas surpresas. Se é fã incondicional do gênero pode admirar as cenas muito bem construídas. Mas se curte terror e busca um suspense imprevisível ou cenas que dão pesadelos, o máximo que vai conseguir é um certo "nojinho" de algumas sequencias, nada que não possa ser curado esquecido após o fim da projeção.

A Cura (A Cure for Wellness)
EUA - 2017 - 147min
Terror
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

9 anos falando nisso...

Devo admitir, minha celebração de aniversário do blog este ano está atrasada. Na verdade, o Ah! E por falar nisso... completou nove anos na última quarta-feira, dia 08 de Fevereiro. Mas, não deu tempo do post sair! Esta correria no entanto é o exemplo perfeito de como foi este último ano de blog e de como provavelmente o próximo será.

Mesmo atrasada, não vou deixar de comemorar, afinal o blog continua firme e forte. Por muito mais tempo do que imaginei quando comecei um passatempo novo lá 2008. O conteúdo cresceu, e os projetos paralelos (já conhece o Roteiro Adaptado?) também, por isso a celebração: devagar e sempre, estou conseguindo.

Sem mais enrolação, vamos aos números. Este é o post número 1085 do blog, 170 textos novos desde o último aniversário. A pagina do Facebook ultrapassou a marca de 400 seguidores. Tudo isso sem artifícios ou atalhos, como entrega de prêmios, troca de links, compra de seguidores, entre outras coisas estranhas que rolam pela blogsfera. Uma comunidade unidas apenas por bom conteúdo -  ao menos o melhor que posso oferecer - produzido por apenas uma pessoa, cujo blog não é a única, ou principal ocupação.

Pode não parecer muito para páginas com "zilhões" de seguidores, blogueiros e youtubers celebridades. Mas é uma conquista pessoal, para esta humilde blogueira que vos escreve, e aproveita para agradecer.

Obrigada à você que passa por aqui, seja desde sempre, recém chegados, leitores fiéis, visitantes de uma só vez, ou que acharam a página por acidente. Obrigada por me dar um motivo para continuar, por diminuir a sensação que muitos tem de estar enviando textos para o enorme universos de conteúdos perdidos que a internet pode ser.

E agora me despeço, com a pergunta: bora enfrentar mais um ano?
Estou pronta para tentar!

Temporada 2017 iniciada...
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Cinquenta Tons Mais Escuros

"Se entregue a algo um tom mais escuro"; "Sem mais regras"... Não se deixe enganar pelo tom supostamente ousado do marketing de Cinquenta Tons Mais Escuros. Em matéria de ousadia, este longa chega ser até mais comportado que seu nada audacioso predecessor. De fato, a tal ausência de regras significa o oposto do que o imaginário coletivo esperaria.

Após a negativa de Anastasia Steele (Dakota Johnson) às práticas de sadismo de Christian Grey (Jamie Dornan) no final de Cinquenta Tons de Cinza, neste longa o rapaz volta à procurá-la disposto a deixar seus hábitos para ter a amada de volta. Antes disso uma sequência de abertura envolvendo um pesadelo/flashback de infância está presente para justificar o comportamento do mocinho. Afinal, neste mundo de "falsa ousadia" nenhuma pessoa saudável seria adepto de BDSM.

Ao menos neste longa, o sadismo extremado do personagem tem consequências que justificam a vergonha por cometê-los. Elas vem nas figuras da traumatizada ex-submissa de Grey, Leila (Bella Heathcote, de Orgulho Preconceito e Zumbis e Sombras da Noite), e da ex-mentora obcecada Elena (Kim Basinger), que aparecem para apontar todas as coisas que podem dar errado na relação dos protagonistas. Junta-se a elas, o chefe abusivo de Ana, Jack Hyde (Eric Johnson) como antagonistas do casal. Com três opções a trama nunca escolhe qual antagonismo vale uma abordagem mais profunda. Até porque, o foco real é a relação do casal e seus supostos limites.

Neste ponto, o dilema não avança muito. Agora supostamente as vontades da mocinha são levadas em conta, embora pouco à pouco estas se mostrem bastante suscetíveis as vontades no agora oficialmente namorado. Assim, apesar de melhor filmadas, as cenas de sexo seguem o mesmo padrão de evolução do filme anterior. Saindo do "amor comportado" até o retorno do controverso quarto vermelho. A grande diferença seria que agora há uma relação romântica igual entre as partes, infelizmente a química dos atores não ajuda muito a nos convencer disso. Nem mesmo com o aumento de cenas de romance água-com-açúcar.

Entretanto há sim, no longa um tema interessante a ser abordado. Transformado em um transtorno de personalidade, as preferências de Grey tem consequências desastrosas em relação à Leila, em uma cena que temos um vislumbre de um nível absurdo de submissão. Infelizmente o aprofundamento para por aí, e o tema é desperdiçado. O mesmo vale para a breve participação de Basinger, mas ao menos à indicação de que a veterana terá um papel maior no próximo longa. Cinquenta Tons de Liberdade já está filmado e tem uma prévia exibida durante os créditos e data de estreia: Fevereiro de 2018.


Quanto à Cinquenta Tons Mais Escuros, diálogos previsíveis, tentativas fracas de suspense com soluções absurdas (atenção à sequencia do helicópitero) e uma trilha sonora mais interessante são as principais características do filme. Seu melhor feito é ser uma versão melhor lapidada do primeiro longa e trazer a esperança de mais conteúdo para a sequencia, ao apresentar novos personagens. Enquanto isso, ficamos na esperança que o desfecho da versão para o cinema da trilogia literária de E.L. James, tenha o mínino conteúdo para justificar o burburinho que a acompanha nas páginas e nas telas.

Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Of Grey 2: Fifty Shades Darker)
2017 - EUA - 118min
Drama/Romance


Leia também a crítica de Cinquenta Tons de Cinza
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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

LEGO Batman: O Filme

Ben Affleck que me desculpe, mas acho que finalmente encontrei meu homem-morcego favorito (sempre fui mais fã do Superman). E ele é o protagonista de LEGO Batman: O Filme (voz de Will Arnet). Vivendo em um mundo nada realista e ultra-colorido - mesmo porque a única coisa maneira o suficiente para usar preto é o Batman - encontramos uma versão do herói em que o peso de seu trauma de infância não conduz todo o seu comportamento, embora ainda influencie suas atitudes.

Egocêntrico e solitário Batman ama sua vida de celebridade maior de Gotham, e sua capacidade de solucionar os crimes da cidade sem ajuda. De fato a polícia nem tenta, para qualquer ameaça a reação imediata é acionar o bat-sinal. Mas quando o Comissário Gordon (Hector Elizondo) se aposenta e é substituído por sua filha Bárbara (Rosario Dawson), as nova ordem é abandonar a "bat-dependência" e voltar a resolver os crimes. Enquanto isso, o Coringa (Zach Galifianakis) se empenha em um plano mirabolante para provar que é o arqui-inimigo do herói.

Uma paródia divertida e inteligente cheia de referências ao universo do Batman. E com o luxo de poder explorar não apenas os heróis da DC, mas todas as franquias licenciadas para a empresa dos blocos coloridos. O resultado é, uma reunião de personagens das mais diferentes épocas e origens, capaz de colocar um sorriso de orelha-a-orelha de qualquer nerd, ou fã de cultura em geral. Sempre com bom humor passeamos por reuniões há muito aguardadas, e nos deliciamos com encontros não só inesperados, mas impossíveis em qualquer outro universo.

Como de praxe, o plano do vilão é facilmente deduzível. Assim como a jornada de nosso herói, que vai ter que aprender a não ser o centro dos holofotes, trabalhar em equipe. E claro superar seu trauma de infância: fazer parte de uma família.

Achou pouco? Neste universo - o mesmo de Uma Aventura Lego - qualquer coisa ao redor dos personagens, pode se tornar um gadget para o herói. A habilidade de criar livremente com os blocos era o tema central do primeiro filme. Aqui serve de recurso para tirar os personagens de situações impossíveis.

A animação traz um elenco de estrelas em pontas de luxo que incluem Michael Cera, Channing Tatum, Jonah Hill, Zoe Kravitz, Mariah Carey, entre outros. Nenhum no entanto mais surpreendente que a escalação de Ralph Fiennes como Alfred, especialmente quando descobrimos a participação de outro personagem icônico do ator cuja identidade não convém nomear no momento. Para quem conseguir assistir com áudio original a graça é tentar adivinhar quem é quem. Mas não precisa fugir da versão nacional, que acerta na adaptação das piadas para o público brasileiro.

LEGO Batman pode não trazer uma visão extremamente fiel do personagem. De fato alguns nem o colocariam na lista de filmes de super-heróis de 2017, categorizando-o apenas como animação. Mas não se engane, o longa metragem é sim uma animação bem produzida, uma excelente comédia e um filme de super-herói eficiente. Surpreendentemente deve agradar crianças, adultos e até os fãs de quadrinhos mais exigentes.

LEGO Batman: O Filme (The LEGO Batman Movie)
2017 - EUA - 104min
Animação
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Estrelas Além do Tempo

Algumas histórias nos surpreendem tanto pela jornada em si, quanto pelo fato de nunca terem sido contadas. Estrelas Além do Tempo é um desses casos. Afinal, a maioria de nós sequer cogitou a existência de mulheres negras trabalhando na Nasa durante a corrida espacial, principalmente no segregado sul estadunidense.

Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), faziam parte do grupo de "computadores", pessoas que faziam os complicados cálculos que a agência precisava antes da chegada dos computadores. É claro, todo o serviço era realizado na área destinada as pessoas de cor na instalação. Quando os Russos ameaçam tomar a liderança da corrida mais talentos e esforços são requisitados e é aí que as protagonistas encontram e aproveitam a oportunidade de crescer. Não que os "brancos" tenham de fato lhes dado tais oportunidades.

Prodígio da matemática desde a infância, Katherine, única capaz de compreender um determinado tipo de cálculo, vai trabalhar em um novo setor. É claro, um que nunca teve uma pessoa negra ocupando uma de suas mesas. Dorothy corre contra o tempo para se preparar para a chegada de um computador da IBM, que inevitavelmente tornará seu cargo atual obsoleto. Enquanto Mary luta para ter o direito de estudar e se tornar engenheira. Tudo isso sem deixar de lado os compromisso com família e umas com as outras, já que são retratadas como boas amigas.

No contraponto, seus coadjuvantes de luxo Kirsten Dunst e Jim Parsons, são as personificações mais diretas de todo o preconceito com que elas precisam lidar. Embora o filme traga tanto exemplos de racismo direto, quanto velado e ainda aqueles cometidos sem sequer perceber: é hábito! A dupla de antagonistas se sai bem, embora Parsons tenha apenas uma versão mais maliciosa do Sheldon Cooper para trabalhar. Ele é um bom ator, só precisa conseguir papéis diferentes.

Já o diretor da NASA Al Harrison (Kevin Costner) é uma espécie de mentor para Katherine, que divide a mesma paixão pelos números, mas não a mesma realidade. De fato, ele nem faz ideia das dificuldades de sua funcionária mais brilhante até que ela as exponha para ele em uma ótima cena de catarse. E mesmo quando ele toma uma atitude, não é por ela, ou por seus direitos, mas em prol da corrida espacial. Um detalhe como cor da pele, não pode atrasar o trabalho da Agência.

Não que o trio não consiga respeito de alguma forma. Não por quem são, ou por seu esforço, mas pelo resultado que entregam. Reconhecimento? Isso só virá no século seguinte. Embora cada uma delas tenha conquistado seu espaço dentro de suas áreas de trabalho.


Já do lado de cá da tela, o trio de protagonistas é carismático e não demora a conquistar o público. Mantendo o interesse, mesmo durante as pausas na corrida espacial para termos um vislumbre de seu dia-a-dia, e nos críticos momentos onde discutem matemática que está além do alcance do expectador comum.

Estrelas Além do Tempo é uma produção bem resolvida e eficiente ao retratar o esforço e o trabalho destas mulheres. Além de cumprir a importante tarefa de apresentá-las finalmente ao mundo.

Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures)
2016 - EUA -127min
Biografia/Drama
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

IBoy

Eu sei que já está ficando chato o excesso de comparações que as pessoas que as pessoas fazem entre qualquer coisa tecnológica e Black Mirror. Entretanto, neste caso, preciso entrar no coro: IBoy poderia tranquilamente figurar entre um dos episódios da antologia, mas também poderia estar inserido em qualquer universo de super-heróis. Embora, neste último quesito o filme da Netflix tenha sua própria identidade, se comparado ao que tem chegado ao cinema.

Tom (Bill Milner, o jovem Magneto de X-Men: Primeira Classe) presencia um ataque à casa da garota por quem é apaixonado, Lucy (Maisie Williams, a Arya de Game of Thrones). O Rapaz tenta fugir enquanto chama a polícia, mas é baleado. Ele acorda dias depois com fragmentos de seu smartphone em seu cérebro e a habilidade de se conectar com qualquer eletrônico. Morador de um bairro com uma onda de violência crescente, não é preciso ser um gênio para deduzir como ele decidirá usar suas novas habilidades.

Sim, o protagonista é um "super-hacker", com a mente consegue acessar e interferir na vida das pessoas através de nossos inúmeros dispositivos conectados à internet. Contexto que precisa sim de uma boa dose de suspensão de descrença do expectador, mas é a mesma que nos faz crer que um inseto radioativo pode fazer um adolescente ser capaz de escalar prédios. Logo, não é difícil comprar a ideia, especialmente graças a boa solução gráfica para colocar as atividades do hacker em tela sem precisar de explicações, falas, ou mesmo gestos grandiosos.

Uma história que começa como uma busca por justiça, se transforma em uma trama de vingança e posteriormente uma tentativa de salvar a cidade. No processo Tom descobre a extensão de suas habilidades. Podemos vê-lo utilizando-as tanto para coisas pequenas e banais até grandes interferências em instituições altamente protegidas, ações através de grandes distâncias e com enorme quantidade de dados. Por isso, soa um pouco discrepante quando, no auge de sua capacidade, Tom decide tomar uma atitude presencial à moda antiga, levando o filme para um clímax tradicional.

Felizmente, este clímax simplifica, mas não esquece completamente a premissa do filme. E principalmente seus temas: a violência urbana, o excesso de tecnologia em nossas vidas e a vulnerabilidade que ela traz. Nas questões que competem ao herói estão: como lidar com suas habilidades, as "grandes responsabilidades" que vem com ela, quais os limites, e tudo que pode dar errado ao escolher usá-las.

IBoy tem um protagonista fácil de se relacionar, cujas motivações são compreensíveis. Aborda problemas contemporâneos com estilo e tom próprios. Uma opção diferente para quem gosta tanto de super-heróis, quanto de tecnologia. A boa seleção de elenco traz ainda conta com Miranda Richardson e Rory Kinnear. O longa é uma produção da Netflix e já está disponível na plataforma de streaming.

IBoy
2017 - Reino Unido - 90min
Ação/Ficção-cientifica
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