sexta-feira, 3 de junho de 2016

Legião

Quando eu tinha uns quatro ou cinco anos acreditava que cedo ou tarde  iriam anunciar que não há mais músicas a serem compostas, ou histórias a serem criadas. É sério! Eu acreditava que tudo era apenas uma combinação de sons e palavas, que logo se esgotariam. Logo, fiquei interessada quando li a sinopse da HQ Legião de Salvador Sanz:
"Todas as músicas já foram criadas?
Já vimos todas as cores existentes?
Conhecemos todas as formas possíveis?
Felizmente, não.
Existe uma música que nunca deveria ter sido criada, uma cor que nunca deveria ser vista, uma forma que nunca deveríamos conhecer. Mas os três descobrimentos foram feitos em uma cidade e não podemos mais retroceder: a passagem foi aberta."
Tivesse eu prestado mais atenção à segunda metade da sinopse, talvez não tivesse me surpreendida ao descobrir uma publicação de horror. Entretanto, seguindo a minha meta, não declarada, de expandir e conhecer coisas novas, a surpresa foi bem vinda!

Para quem, assim como eu, não conhece, o argentino Salvador Sanz é responsável pelo roteiro e arte desta obra. Um "pesadelo gráfico", segundo prefácio veterano quadrinhista Enrique Alcatena. Estilo já característico de suas páginas.

Legião se passa em Buenos Aires sombria, com direito à localizações geográficas reais da capital Argentina. Contudo, em um universo digno de pesadelos. Nele, uma artista plástica descobre uma cor inédita, a ultramal (será que ela não desconfiou do nome?). Ao mesmo tempo um roqueiro de garagem entra em transe por mais de 20h. Em seguida a cidade é atingida por uma série de acontecimentos assustadores, que culminam na chegada de estranhos invasores.

Nós acompanhamos a artista, o roqueiro e outros poucos sobreviventes em uma jornada ao mesmo tempo de fuga e compreensão desta nova ordem social. Uma jornada não muito longa (a HQ tem apenas 66 páginas), e sem grandes esperanças. Final abruto, sem grandes explicações ou mesmo soluções para os personagens, pode incomodar alguns. Mas, creio eu, este é o objetivo.
Além disso, mais forte que a narrativa é o visual que esta ganha. Com muitas páginas em preto e branco (inclusive quando apresentam a nova cor que nunca deveríamos ter criado), as cores chegam junto com os visitantes inesperados, para tornar a atmosfera mais sombria, desoladora ou violenta (leia-se sangrenta neste último). A economia de cores parece tornar ainda mais evidente o detalhismo dos traços  especialmente, nos elementos que envolvem arte, arquitetura e os assustadores invasores. Visualmente assustador.

E isto é o máximo que se pode dizer sobre  Legião sem estragar a experiência. Uma história de horror bem contada narrativa e visualmente. Vale avisar, não é para crianças, quem tem medo do escuro, ou estômago fraco!

Particularmente, meu eu de quatro anos se alegra em saber que ainda há histórias e músicas a serem criadas. E agora um pouco preocupada, se existe alguma que não deveríamos criar.

Legião é a quinta edição da Coleção Fierro da Zarabatana, e além da história traz esboços e estudos de personagens. Editora já lançou Noturno e Angela Della Morte também de Salvador Sanz. Legião e Noturno estão disponíveis no Social Comics, o serviço de streaming de quadrinhos.

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