sexta-feira, 13 de março de 2015

Cinquenta Tons de Cinza

"Se precisa pisar em ovos, pise com força!" Disse certa vem um super herói de um blockbuster recente. Ou seja se vai abordar um assunto delicado explore à fundo. Entretanto tal atitude exige uma coragem que Hollywood não possui. Logo, não é surpresa que a adaptação do best-seller Cinquenta Tons de Cinza seja tão rasa, clichê e equivocada quanto a obra que o adaptou.

A recatada (leia-se virgem, porque aparentemente isto é muito importante para a trama) estudante de literatura Anastasia Steele (Dakota Johnson), aceita fazer um favor para uma amiga doente. Ela vai entrevistar para o jornal da faculdade o poderoso magnata Christian Grey (Jamie Dornan). Como nenhuma boa ação fica sem punição Deste encontro, nasce um interesse mútuo entre o casal, que tem apenas uma barreira para superar: o incomum gosto de Grey por BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo).

Já que livro é uma coisa e filme é outra, nada mais inteligente que utilizar os diferentes recursos de cada mídia para aprimorar o conteúdo e a discussão, certo? Errado.

O romance entre Anastasia e Chistian parece transposto à fidelidade para as telas. Opção que fica evidente mesmo para não leitores, já que para quem não ficou preso em um quarto vermelho nos últimos anos, era difícil ignorar a discussão sobre o livro. Em especial a "esquivocada" pesquisa (será que houve uma?) de E.L. James sobre BDSM. Segundo adeptos reais passa longe da realidade, e poderia ser "melhor abordada" no longa.

O resultado é uma relação incoerente entre o casia. O vai-e-vem, no estilo "te amos, mas não devo" (resquício mais evidente do romance que inspirou os livros de James*), acompanhado de uma confusa e equivocada apresentação do BDSM. Enquanto a mocinha finge resistir, por alguns segundos, antes de aceitar os absurdos do rapaz (inclua contratos, exigências estéticas, comportamentais, perseguição e presentes caros). Ele precisa de uma justificativa moral para suas práticas sexuais, afinal "prazer incomum apenas por prazer é errado". E assim como nossa versão cinematográfica de Bruna Surfistinha, Grey tem uma justificativa para ser como é. Ele sofreu abuso na infância.

O passado conturbado também serve de desculpa para o rapaz ser "exêntrico" longe da intimidade de quatro paredes. Exige que a moça tenha mente aberta e suscetível, enquanto admite que ele mesmo nem tentará descobrir coisas novas. Apesar do discurso "sou assim e não vou mudar", é claro a mocinha vai tentar.

Tudo filmado na clichê padronização das comédias românticas. O que torna as cenas "supostamente pesadas" cômicas, deslocadas, mas nunca chocantes. Praticamente brincadeira de criança perto dos gostos peculiares de Joffrey em Game of Thrones, por exemplo.

Admito, não pude evitar rir quando Grey afirma que não "faz amor, e sim...", você conhece o final da expressão. Mas eu não deveria rir. Não é engraçado este cara ser um modelo de par romântico, muito menos sua relação com Anastácia ser um modelo para qualquer relacionamento. Melhor seria aproveitar o tema que eles desperdiçaram, e esmagar alguns ovos, questionando porque a sociedade consome esse tipo de produto com tanta voracidade, sem nenhuma análise ou consciência dos conceitos que está adquirindo e validando.

Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey)
EUA - 2015 - 125min
Drama, Romance


*Cinquenta Tons de Cinza nasceu como uma fan-fiction da saga Crepúsculo.

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