segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Onde Está Segunda?

Um encontro de Black Mirror com Orphan Black, com um elenco de peso e a liberdade criativa que a Netflix costuma oferecer à seus criadores de conteúdo. Onde Está Segunda? tinha potencial para ser uma ficção-cientifica impactante, mas se perde na proposta e fica só na promessa.

Em um futuro não muito distante, a superpopulação está colocando a humanidade e o planeta em risco. A solução cientifica aplicada só agrava o problema levando o governo a adotar a política do filho único. Irmãos são preservados em criogenia para quando a crise for solucionada. Terrence Settman (Willem Dafoe) se descobre com sete netas, gêmeas idênticas(Noomi Rapace). Ele resolve manter as sete meninas, fazendo com que elas revezem a mesma identidade de Karen Settman ao longo dos sete dias da semana que as nomeiam. Isso funciona por trinta anos, até que Segunda não volta para casa. Do outro lado do jogo, as autoridades responsáveis por manter a lei do filho único representados pela figura da criadora do projeto Nicolette Cayman (Glenn Close).

Uma sociedade distópica, porém completamente plausível (vai dizer que não estamos caminhando para isso?) cheia de questionamentos. O dilema de um avô que ao mesmo tempo que o torna em um salvador o coloca em papel de carrasco. A complexa adaptação de sete identidades distintas para dividir uma única vida. E a própria convivência permanente forçada destas mulheres, que não encontram solução melhor para sobreviver ao sistema. Não falta discussões e dilemas interessantes a serem explorados no argumento deste longa.

Apesar de tantas opções, Onde Está Segunda? prefere privilegiar a ação em torno do mistério do título. Transformando a trama em uma história de detetive com boas sequencias de perseguição e luta, mas cujas protagonistas tem suas características determinadas pela necessidade na trama. Assim, temos a atleta, a hacker, a festeira a rebelde e por aí vai.


Se as habilidades da maioria das irmãs é perceptivelmente conveniente a trama, também não demora muito para percebermos aquela que terá maior protagonismo. Basta procurar a de personalidade menos "rasa", porém não menos caricata. Sim, Rapace é eficiente em definir e delimitar cada uma delas, mas o roteiro não escolheu características interessantes, ou mesmo realísticas para nenhuma. E muito pouco conhecemos da maioria das moças.

Enquanto isso, as pistas que elas descobrem logo deixam claro para o espectador mais atento o mistério por trás do sumiço de Segunda. Já os motivos para tal desaparecimento podem até não ser tão óbvios, mas soam incoerentes no contexto. Outros pensamentos podem te incomodar a partir do momento em que o mistério deixa de ser uma preocupação, como: será que nenhum dos vizinhos nunca ouviu sete meninas no andar de cima? O avô delas é rico para ter um apartamento tão espaçoso em um mundo com problemas de superpopulação? E como ele justifica o consumo de alimento e roupas para oito pessoas em uma casa que supostamente só tem duas?

Rapace é boa em cenas de ação, que neste longa são bem conduzidas, assim como a criação de um mundo sem esperança e super lotado. Também eficientes são Glenn Close e Willwm Dafoe com seus personagens ambíguos, mesmo com tão pouco tempo de tela. Mas isso, nós já sabíamos. Onde Está Segunda? prometia adicionar discussões densas, e ousadia à estas já conhecidas qualidades. Um conteúdo rico que poderia se tornar uma incômoda (no melhor sentido, aquele que nos faz pensar) e memorável ficção-cientifica, sobre nossos tempos. Entretanto, o desconforto que fica é por conta da sensação de desperdício generalizado ao fim da sessão.

Onde Está Segunda? (What Happened to Monday?)
EUA, Reino Unido, França, Bélgica - 2017 - 124min
Ficção científica, Suspense

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