quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Atômica

O período da Guerra Fria e seus espiões ainda mexem com a nossa imaginação. Inclua a Berlim dividida pelo muro e toda a atividade em torno dele, e tenha um prato cheio de histórias, reais imaginárias. Este é o cenário em que se passa Atômica, longa baseado na graphic novel The Coldest City de Antony Johnston e Sam Hart, e estrelado por Charlize Theron, que também é produtora.

A agente do MI6 Lorraine Broughton (Theron) é enviada para Berlin às vésperas da queda do muro para investigar o assassinato de outro agente e recuperar uma lista de agentes duplos, que se cair em mãos erradas vai por muita gente em apuros. Para isso ela conta com o auxilio do agente local David Percival (James McAvoy) e suas brutais habilidades de espiã.

Ênfase no brutal da frase anterior, pois Charlize não mediu esforços para dar realismo às cenas de luta de sua personagem. Estas por sua vez foram comandadas por um diretor com experiência no gênero. Dirigindo seu primeiro filme solo, David Leitch já foi dublê e coordenador em ação, luta e acrobacias. O resultado são cenas de ação memoráveis. Uma pancadaria brutal, orgânica, complexa, realista e completamente compreensível para o expectador. Sem câmeras tremidas ou excessos de corte desnecessários comuns em sequências de ação, personagens sentem dor, cansam cambaleiam e usam objetos do cenário quando ficam sem opções. O destaque fica com um plano sequência de tirar o fôlego no último ato do filme.

Este mesmo esmero e brilhantismo das sequencias de luta, se estendem para das demais cenas de ação. Mas entre elas o filme esbarra em uma trama simplista contada de forma muito intrincada. São muitos nomes, diálogos extensos e uma criação de mistério que nem sempre funciona. Sabemos que é um filme de espiões, todos podem ser agentes duplos, logo não é muita surpresa quando descobrimos de que lado realmente estão os personagens. O formato de flasback gigante adotado pelo longa, Lorraine está contando a história para seus superiores, também não ajuda. Sempre que a trama começa a engrenar somos retirados dela e levados para a sala de interrogatório. Tudo isso torna história arrastada e a espera pelas próxima sequencia de pancadaria muito longa.

Com uma intérprete excelente e carismática e uma mulher forte como protagonista, o filme também não resiste à transformá-la em objeto. Abraçando contraditoriamente duas leituras completamente opostas para a mesma personagem. Lorraine é destemida, auto-suficiente e corajosa ao mesmo tempo que parece saber estar sendo filmada todo o tempo, caprichando nas poses mesmos nos gestos mais sutis. O fetichismo excessivo incomoda, já que chega ao ponto de incluir cenas românticas que não evoluem a narrativa entre a personagem de Charlize e de Sofia Boutella, apenas porquê podem fazê-lo.

Estiloso, o visual e a trilha sonora do filme merecem uma atenção à parte. A Berlim do dia-a-dia é lavada, cinza e triste, já o submundo dos espiões é neon, colorido e cheio de contrastes entre vermelho que ressaltam a natureza dúbia dos personagens que habitam esse mundo. Já a trilha sonora cheia de hits do final dos anos de 1980, complementam as cenas criando uma atmosfera oitentista nostálgica, embora narrativamente não tenha grandes funções. A música transforma muitas das sequências em verdadeiros videoclipes

Entre os personagens, nenhum tem motivações bem definidas e tantas camadas, a não ser pela protagonista. Não que isso seja um defeito, o foco é a trajetória de Lorraine. E Theron é eficiente em passar o que a personagem pensa e sente, mesmo sem palavras, além de atender os requisitos físicos para as sequências de ação, ela fez a maioria. Dentro do que seus personagens permitem, os demais atores também não decepcionam. Além de McAvoy e Boutella, o elenco também conta com John Goodman, Toby Jones e Eddie Marsan.

Sem ter medo de se assumir como um filme de gênero, Atômica tem uma estética cheia de personalidade, uma boa da trilha sonora e cenas de luta excepcionais. Falta equilíbrio entre as boas cenas de ação e o roteiro intrincado, e na imagem que pretendem construir de sua protagonista. Coisas que podem ser ajustadas em uma possível sequência que pode ser garantida pela qualidade da ação e principalmente pelo carisma de de sua estrela Charlize Theron.

Atômica (Atomic Blonde)
2017 - EUA - 115min
Ação
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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Teletransporte e referências

Alguns anos atrás, assisti uma entrevista de David Benioff e D. B. Weissos, produtores de Game of Thrones,  dizendo que queriam fazer a série por causa do Casamento Vermelho. Já faz anos que a trágica cena foi ao ar, será que o interesse diminuiu e a dupla foi tomada por uma pressa burocrática em terminar a trama?

O ministério dos série maníacos adverte: este texto contém spoilers da 7ª temporada de Game Of Thrones!
 Achei difícil não pensar nisso, ou no peso das restrições orçamentárias de uma série que cresceu de mais ao assistir a sétima temporada desta produção da HBO. Ao invés dos dez episódios dos anos anteriores, a mais recente incursão em Westeros (só Westeros, desta vez não vimos absolutamente nada em Essos) teve apenas sete capítulos para fazer a história avançar para a reta final. O resultado? Muito teletransporte, várias falhas temporais e um abuso da capacidade da suspensão de descrença do expectador.

Sobre teletransporte e restrições orçamentárias


A não ser por Mindinho, que sempre foi "fora da curva", a série estabeleceu por exemplo que se leva certo tempo para viajar de um canto à outro. Mesmo quando não acompanhávamos a jornada, levava cerca de um episódio para se chegar em algum lugar. Com menos tempo para contar a história, esse tempo foi diminuído. Até aí não seria problema, compreendemos elipses, o problema é que o salto temporal não é o mesmo para todo mundo. 

Assim corvos, chegam de Pedra do Dragão e da Cidadela em Winterfell, mas nenhuma notícia da chegada do Bran na Muralha chega na casa dos Starks. O próprio Corvo de Três Olhos leva mais tempo para chegar em Winterfell que Jon na Ilha de Daenerys. O auge foi a maratona de Grendry, que enviou um corvo a jato para a mãe dos dragões, que por sua vez chegou para salvar todos em um dia e meio, tendo ela e o corvo percorrido meio continente de distância.

Benioff e Weissos admitiram que fizeram escolhas de roteiro para fazer a trama andar mais rápido. O problema é que estas escolhas foram as mais simples e óbvias, e ate mal executadas. O corvo sobre Bran na Muralha óbviamente não chegou para gerar um desencontro entre os irmãos. Já o tempo esquisito no cerco do "esquadrão suicida", poderia ter sido solucionando com alguém mencionando que "tantos dias" já passaram e que talvez o resgate nunca chegasse. Aliás, que plano mais absurdo esse, não é mesmo?

Para não dizerem que só reclamo, financeiramente fazer menos episódios foi uma escolha acertada para o esmero da produção. A economia permitiu que caprichassem nos efeitos especiais, nunca vimos dragões tão realistas na TV. Uma pena que o lobo gigante Fantasma também tenha desaparecido em prol da economia para fazer Drogon, Viserion e Rhaegal.

E por falar nos lobos, demorou sete temporada mas os Starks sobreviventes finalmente se encontraram, e a relação deles foi bem complexa.  Depois de tudo que passaram a realidade do encontro fica aquém da nossa vontade e imaginação de como seria. Mas no geral é coerente com seus status atuais, apesar da construção da vingança por mindinho ter transformado a Arya numa pessoa extremamente irritante.


Forçado em alguns momentos, e estranhamente eficiente em outros o ship Jonerys (será que mudaremos para Aegonerys?) finalmente aconteceu para gerar amor e ódio na mesma proporção nos fãs. E você ama ou odeia o encontro?

A relação entre Jaime e Cersey  foi outra que finalmente desencantou. O cavaleiro cresceu muito na terceira temporada ao lado de Brienne apenas para passar os anos seguintes como lacaio da irmã. Honestamente já estava a ponto de perder as esperanças no personagem.

Outras situações mal explicadas são a forma com Bran resolve usar seus poderes. O banco de Braavos patrocinar o escravagismo, a cidade foi fundada por ex-escravos. Pedra do Dragão está completamente vazia nem mesmo a esposa do caseiro estava por la vigiando a fortaleza. Stannis levou mulheres, crianças e idosos para a guerra também?  Como Sam um estagiário ainda no "nivel de limpar latrinas" conseguiu curar uma doença pesquisada por anos, por grandes estudiosos. De onde Jon tirou o apelido Danny? E o desaparecimento oportuno de Euron, como ele construiu uma frota gigantesca tão rápido, se nas Ilhas de Ferro não tem florestas? Não que eu me importe muito com os Greyjoy.

Mas vamos à parte divertida do título deste post, as referências!


Os roteiristas parecem ter feito uma maratona de Game of Thrones antes de escrever esta temporadas. Não faltaram, falas que retornam, situações semelhantes e ecos das temporadas anteriores. Coerente, divertido e um prato cheio para os fãs mais atentos e com boa memória.

Reencontros também entram na cota das referências. Seja em participações rápidas como Torta Quente e Nymeria ou retornos triunfais como o de Gendry. Só faltou alguém encontrar o Tio Edmure. Uma pena que o tempo não deixou que os reencontros fossem melhor explorados. Entregando apenas diálogos curtos entre os personagens.

É tanto Girl Power junto que a luta empata!

Aquela hora que você quer que o dois lados da luta vençam.
Não mata o Bron, nem o Dragão!
Mas, vou dizer o que amei nessa situação toda: Davos! Boa praça o Cavaleiro das Cebolas, fez todas as piadas que estávamos pensando. A bronca de Meera em Bran também foi acertada. Assim como todo o Girl Power até porque a maioria dos personagens que sobreviveram, são mulheres.

A sétima temporada de Game of Thrones, foi sim a mais cheia de emoções, fã-services e momentos bombásticos. Mas vale lembra: tornar todos os momentos épicos, é só um jeito complicado de fazer com que nada realmente se destaque. A calmaria entre os momentos de grande impacto faz parte da construção. Uma tensão que a série sempre foi eficiente em construir, especialmente com as intrigas políticas - favoritas de muita gente - que aqui precisou ser deixada de lado, pois a história é longa e o tempo é curto.

Meio burocrática, a sensação de pressa para acabar ficou. Faltou também um pouco de ousadia. Quem mais reparou que nenhum dos personagens principal morreu, nem ao menos ficamos com receio de verdade por eles? Tavez, a baixa mortalidade tenha sido a grande reviravolta deste ano - supresa, ninguém morre. Mas sim, eles mataram um dos Dragões menores, e aprendemos estávamos mais preparados para mortes de humanos do que de um dos bebês da Danny.

Mesmo com falhas aqui e ali, acompanhar Game of Thrones ainda é uma experiência única. Se empolgar com os personagens, admirar o esmero técnico da produção, especular e agonizar de ansiedade emnquanto espera o próximo episódio - shame, shame, shame para você que viu o vazado - tudo isso faz parte. É a melhor parte! É por isso que vemos a série.

Game of Thones é exibida pela HBO, simultaneamente com a estréia nos Estados Unidos. A oitava e última temporada chega ao canal apenas em 2019. Que nossa vigia comece!

Leia mais:  textos da segunda, terceira,  quarta e quinta temporadas, sobre  Game of Thrones - The Exhibition no Brasil, e mais tudo que já foi dito sobre a série no blog.

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domingo, 27 de agosto de 2017

Game of Thrones: fã de carteirinha#28

A sétima temporada de Game of Thrones está chegando ao fim, e não estamos sabendo lidar com isso. Para acalmar ou atiçar os nervos até o season finale desta noite confira este vídeo de AnneSoshi. O canal não apenas fez uma montagem excelente, como parece ter encontrado o hino perfeito para a casa Stark e seus aliados.

A canção é Comes And Goes (In Waves) de Greg Laswell.

Leia mais sobre Game of Thrones e outros posts de Fãs de Carteirinha.

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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Torre Negra

Dificilmente assisto filmes na TV aberta, pois fico incomodada com os cortes e saltos para que a produção caiba do espremido espaço reservado a ela na grade de programação. Ainda sim, essas versões "criadas pelas emissoras" geralmente ainda deixam uma obra coerente o suficiente para manter o espectador médio interessado. A Torre Negra, já chega aos cinemas trazendo esta sensação de obra picotada, ou no mínimo mal montada.

Jake Chambers (Tom Taylor) é um adolescente que tem pesadelos com outro mundo. Certo de que algo errado está acontecendo e sem conseguir fazer com que acreditem nele, o garoto resolve pesquisar por conta própria e acaba chegando ao Mundo Médio. Terra onde o pistoleiro Roland Deschain (Idris Elba) persegue o Homem de Preto (Matthew McConaughey), que pretende destruir a Torre Negra que protege os mundos, o nosso, o deles e muitos outros.

Um universo completamente novo promete se apresentar na tela. E as idéias estão lá, mundos paralelos, pessoas com capacidades incríveis, tecnologias que desconhecemos, magia, mas nada é devidamente apresentados. Quem são os pistoleiros, quais seus objetivos? E o Homem de Preto, quais são seus poderes? Como ele usa as crianças para destruir a Torre? E porque Jake é diferente?

E por falar em Jake, deveria ser pelos olhos dele que desvendamos este mundo, mas assim que este encontra Roland o protagonismo se divide. Não sabemos de fato quem está conduzindo a trama. E enquanto o pistoleiro não precisa explicar nada já que vive neste mundo, o adolescente por sua vez não faz as perguntas que qualquer pessoa faria. Ele nem ao menos parece deslumbrado ou confuso diante desse novo mundo, deixando o expectador à deriva nesta aventura.

Se você não entende o universo e a própria narrativa não decide o protagonista, fica difícil manter o interesse pelo que está por vir. A situação se agrava ainda mais quando pensamos nos coadjuvantes, não há nenhum temor por seu bem estar, ou mesmo impacto por sua morte. O trio principal formado por Elba,  McConaughey e Taylor tentam fazer o melhor possível com o roteiro que tem, especialmente os veteranos. Talvez isso, mantenha a atenção do público por um pouco mais de tempo.

Outro potencial desperdiçado é o visual da produção. O Mundo Médio nem de longe parece o outro universo que poderia ser. Um deserto, uma floresta, uma vila, todas poderiam estar tranquilamente dispostas na nossa Terra. É tudo muito bem executado, mas o resultado é genérico. O mesmo vale para as cenas de ação. Bem feitas, mas com um gostinho de "déjà vu".

A Torre Negra é inspirado na série literária homônima de Stephen King. Livros extensos, com uma narrativa muito rica, mas no longa é tudo muito simples. Os personagens são unidimensionais, e o problema objetivo. Um cara é bom, outro mau. Precisamos salvar o mundo deste segundo que quer destruí-lo por motivos que desconhecemos. Simples assim. Saltando de uma cena para outra, sem uma transição orgânica da trama, soa como um livro de recortes da saga literária.

Material de origem cheio de possibilidades, um bom elenco, verba para produção que durou cerca de uma década para se tornar realidade. Talvez o maior problema de A Torre Negra seja a percepção de potencial desperdiçado que ele deixa. Pode distrair alguns por um tempo, mas logo será esquecido. Também não vai agradar os fãs da saga literária, nem conquistar novos leitores curiosos. Ao menos parece já estar pronto para a exibição televisiva. A questão é: o que a TV vai cortar quando a produção chegar na Sessão da Tarde?

A Torre Negra (The Dark Tower)
2017 - EUA - 95min
Fantasia, Aventura
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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Bingo: O Rei das Manhãs

Não se espante se achar a figura título de Bingo: O Rei das Manhãs familiar. De fato, se você trem 30 anos ou mais, provavelmente vai lembrar de um certo palhaço que fazia sucesso com a criançada na década de 1980. O longa é inspirado na vida de Arlindo Barreto, especificamente no período em que ele interpretava o Bozo na televisão.

Augusto Mendes (Vladimir Brichta) não tinha muita sorte na carreira de ator até conseguir o papel Bingo, palhaço apresentador que anima criançada diariamente nas manhãs de uma emissora de TV. Um sucesso meteórico de audiência, Bingo ficou famoso, mas seu intérprete por trás da maquiagem não. A frustração por não ter seu trabalho reconhecido e a vida desregrada de quem alcançou sucesso e fama sem estar pronto para lidar com isso colocam o protagonista em um caminho complicado.

Sim, é uma típica trama de potencial desperdiçado, deslumbre com a fama e problemas com drogas. Mas é uma história muito bem contada e com a peculiaridade de se passar nos "loucos" anos de 1980, relembrados sempre como uma época de excessos e exageros. O longa, aliás, acerta e muito na reconstrução da época sem ser negativamente crítico. Sim, era cafona, mega colorido, exagerado e até absurdo, mas era assim que as coisas eram e pronto.

A produção não precisou apenas recriar a década, mas também nomes, logos e cenários sem perder a familiaridade com o real. Já que questões de direitos autorais impediriam o uso do nome Bozo, o apresentador virou Bingo. Junto com ele, todos os nomes mudaram oferecendo maior liberdade criativa para o roteiro, que incluiu situações ficcionais e casos que aconteceram também com outros atores que deram vida ao palhaço -  o personagem teve mais de uma dezena de intérpretes por todo país entre 1981 e 1991. Se você não sabia, desculpe por estragar sua infância!

A única personagem que teve seu verdadeiro nome mantido é Gretchen. A rainha do rebolado foi divertida e acertadamente recriada por Emanuelle Araújo. Mas o destaque do elenco é mesmo Brichta, que mergulha de cabeça tanto na pesona do palhaço, quando na pessoa perturbada por trás do pancake. Além da falta de reconhecimento e do problema com drogas, Augusto ainda tem que lidar com as restrições e o roteiro ruim impostos ao personagem pelo criador "estadunidense", com a diretora linha dura  do programa vivida por Leandra Leal e a falta de tempo de brincar com seu próprio filho (Cauã Martins). E por mais que faça tudo errado - muito errado mesmo! -, seu carisma impede que o público não escolha torcer por ele.

Uma versão romanceada e muito bem construída de um ícone da infância de muita gente, Bingo: O Rei das Manhãs vai conquistar muita gente não apenas pela trama e boa atuação, mas pela nostalgia. Tente não sorrir ao reconhecer uma propaganda do pirocóptero no fundo de uma cena, ou ao perceber que a TV de hoje nunca exibiria programas infantis como aqueles que assistíamos. Filme de estreia de Daniel Rezende como diretor, é uma feliz surpresa do cinema nacional vai agradar e muito a todos que sobreviveram à TV da era "pré-politicamente correto", e não cresceram problemáticos por causa disso.

Bingo: O Rei das Manhãs
2017 - Brasil - 113min
Drama, Biografia
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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Defensores - 1ª temporada

Em suas primeiras incursões na telinha Demolidor e Jessica Jones surpreenderam pela qualidade. Já Luke Cage tinha uma personalidade e ritmos bastante específicos que exigiam um pouco mais de empenho do espectador. Enquanto Punho de Ferro, sou simplista demais e ousada de menos. Quem acompanhou o desenvolvimento das séries da parceria Marvel-Netflix deve ter ficado curioso em como seu desfecho colocaria juntos personagens tão distintos em personalidade e tom.

É nesse contexto de curiosidade, dúvida e empolgação que Defensores chegou à plataforma de streaming este fim de semana. A trama principal desta série que une os quatro heróis urbanos da Marvel, foi contruída ao longo das produções anteriores. Gira em torno do Tentáculo. Organização apresentada na série do Demônio de Hell's Kitchen, que tem relação com a cidade mística onde Daniel Rand treinou e cujas ações interferem nas investigações de Jessica e no cotidiano do amado bairro de Cage. E claro, ameaçam toda a cidade de Nova York.

Explicar estas relações e costurar as histórias de cada um dos seus protagonistas. Os dois primeiro episódios são exclusivamente dedicados à isso. Uma escolha no mínimo surpreendente para a produção, que para alguns pode parecer arrastado. A escolha, porém, é acertada para encaixar tantos personagens na mesma história e evitar pontas soltas.

Depois das devidas introduções feitas a trama segue sem grandes enrolações. Existe uma ameaça, que embora não completamente compreendida, é grandiosa ao ponto de que os heróis deixem suas agendas de lado. É claro, eles não decidem trabalhar juntos de cara, mas as circunstâncias, aos poucos os deixam sem opção e vê-los discutir e tentar fugir das responsabilidades é parte da diversão. Uma pena o roteiro não ter falas mais inteligentes, e situações melhor elaboradas.

Também é nos esperados momentos de interação entre os personagens que descobrimos se a empreitada é bem sucedida. E sim, é ótimo vê-los juntos e a união traz alguns benefícios principalmente para Luke (Mike Colter) e Dany(Finn Jones). O ex-presidiário deixa um pouco de lado a parte ranzinza de ser o herói do Harlem e se diverte um pouco com suas habilidades. Já o Punho de Ferro Imortal - sim, ele continua se apresentando com toda essa pompa - está menos dramático embora ainda continue sendo o mais infantil do grupo. A dinâmica da dupla funciona e deixa portas abertas para aventuras dos Heróis de Aluguel, parceira dos dois nos quadrinhos.

Entretanto, os mais carismáticos ainda são Matt (Charlie Cox) e Jessica (Krysten Ritter), ambos conseguem melhorar um pouco a qualidade do roteiro com suas atuações. A investigadora mal humorada tem as melhores tiradas para apontar os absurdos de uma série de super-heróis. Enquanto o advogado cego está relutante quanto a sua vocação e depois é assobrado pelo seu passado. Passado em forma de Elektra (Elodie Yung), cujos trajes devem agradar os fãs.

Do outro lado da briga, Sigourney Weaver traz uma vilã sem escrúpulos que podia facilmente se tornar caricata, mas funciona nas mãos de sua boa intérprete. Madame Gao (Wai Ching Ho) e Stick (Scott Glenn) trazem sua sábia ambiguidade de volta. Boa parte do elenco das quatro produções também retorna, todos com alguma função na trama ainda que pequena. Entre eles Claire (Rosario Dawson), Colleen (Jessica Henwick) e Misty Knight (Simone Missick) tem mais tempo em cena.

Embora Nova York seja um personagem importante na trama - é pela cidade que os heróis lutam - ela nem de longe tem a personalidade que apresenta em Luke Cage. Ainda sim, é curioso observar como os criadores resolveram identificar a NY de cada um de seus protagonistas através das cores. O mundo do Demolidor é vermelho, de Jéssica é azul, de Cage amarelo, verde para o punho e da vilã Alexandra branco. Deixando evidente o perigo quando todos se encontram em um ambiente muito claro, ou criando um restaurante complexamente iluminado quando os quatro se reunem pela primeira vez. Efeito simples, e até exagerado em alguns momentos, mas completamente em sintonia com uma obra nascida nos quadrinhos.

A decepção novamente fica por conta das lutas. As coreografias não tem grande impacto em cena, parecem "mais do mesmo". Para Jessica e Cage, que não tem treinamento de luta, não é um grande problema. Mas as habilidades marciais pasteurizadas são frustantes quando as vemos em lutadores que supostamente deveriam ser os melhores em suas áreas.

Divertida, Defensores tem seus pontos altos e baixos, mas funciona - tem inclusive a já clássica cena de pancadaria no corredor da franquia. Resolve a trama do tentáculo, que se arrastava desde a primeira temporada de Demolidor. E impulsiona os arcos dos personagens, deixando todos em um ponto mais interessante do que começaram. E o expectador com esperanças quanto ao que está por vir. A segunda temporada de Jessica Jones é a próxima.

A primeira temporada de Defensores tem oito episódios de uma hora cada e todos já estão disponíveis na Netflix. Leia mais sobre DemolidorJessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro.
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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Annabelle 2 - A Criação do Mal

Inspirada em uma boneca real, Annabelle foi apresentada ao público em 2013 no primeiro e excelente Invocação do Mal. O caso real do brinquedo amaldiçoado serviu como introdução para o casal de demonólogos que protagoniza a franquia. No ano seguinte ela ganhou seu primeiro filme solo. Eficiente porém não tão brilhante, a produção abusava dos clichês do gênero, mas assustou a audiência o suficiente para garantir uma segunda incursão nas telas. E que surpresa, Annabelle 2 - A Criação do Mal é melhor que seu antecessor.

O primeiro longa volta no tempo para as "aventuras" de sua personagem título antes de ser detida pelos Warren. Este novo filme repete a cronologia invertida e retrocede ainda mais, até a época em que a boneca artesanal foi construída. O casal Mullins (Anthony LaPaglia e Miranda Otto), fabricam brinquedos quando sofrem uma grande perda na família. Anos mais tarde transformam sua casa em abrigo para um grupo de órfãs desalojadas. Não demora muito, para as meninas "explorarem" a residência e coisas estranhas começarem a acontecer.

Mais parecido com os longas Invocação do Mal do que com o Annabelle original, o filme não escapa de usar os clichês do gênero. Apesar dos sustos fáceis estarem de volta, a produção é mais eficiente na construção de um clima de medo constante. Isso porque, mesmo uma coisa que fica no "lugar comum" pode funcionar se bem feita. E o diretor David F. Sandberg (Quando as Luzes se Apagam) sabe como construir a tensão mesmo em torno de um acontecimento esperado. Para isso,  tira um certo tempo apresentar o contexto, o que deve desagradar aqueles que entram no cinema esperando susto logo nos primeiros quinze minutos de filme.

Apesar desta preocupação em apresentar, o roteiro não é dos mais complexos ou profundos. Sim, se você assistiu alguns filmes de terror na vida vai deduzir muita coisa que está por vir. Alguém vai fazer o que não deve, eventos estranhos passarão despercebidos por muitos dos personagens, outros insistirão em vagar pelo escuro sozinhos, a música eventualmente vai subir e... Bú! Normalmente, esta obviedade me entediaria ou irritaria, mas os acertos compensam o "mais do mesmo" e mantém o interesse no filme.

O primeiro deles é a escolha das talentosas atrizes mirins que vão levar o expectador através da trama, e a apresentação de suas personagens. Não é difícil acreditar na amizade de Janice (Talitha Bateman) e Linda (Lulu Wilson), a partir daí é impossível não se preocupar com seus destinos. Linda inclusive, é surpreendentemente corajosa e até esperta para um personagem do gênero. 

Já o elenco adulto não surpreende, mas Anthony LaPaglia e Stephanie Sigman conseguem acertar o tom do chefe de família endurecido pelo trauma e da tutora preocupada das crianças, respectivamente. Já Miranda Otto é subaproveitada. Envolta em mistério no início da história a Sra. Mullins poderia ter um desfecho interessante, ou melhor trabalhado. Ao menos, sua resolução é graficamente assustadora.

E por falar em "graficamente assustador", a direção de arte acerta ao desenvolver o ambiente da casa. A residência, sem vida quando as meninas chegam, aos poucos escurece e se torna um ambiente opressor conforme o terror se intensifica. Também há pistas e detalhes nos objetos e paredes. Desde óbvias fotografias, até crucifixos escondidos no design da casa.

Também fico satisfeita em dizer que eles continuam resistindo a tentação de fazer a Annabelle se mover em cena - ela não é o Chuck!. Usando outros artifícios, que incluem efeitos práticos e digitais, para "perseguir" as vítimas. Ou usando a sugestão do que não a vemos fazer para nos assombrar.

Entre as já esperadas incapacidades dos personagens em seguir regras, encontrar interruptores, ou simplesmente correr na direção oposta, Annabelle 2 - A Criação do Mal, consegue criar bons momentos de tensão. Aqueles em que não estamos apenas esperando o próximo susto, mas realmente com medo do que está por vir. Não é o melhor do universo de terror produzido por James Wan, mas é eficiente e torna sua personagem título icônica o suficiente para continuar aterrorizando imaginário popular por mais algum tempo.

Annabelle 2 - A Criação do Mal (Annabelle: Creation)
2017 - EUA - 110min
Terror


P.S.: Existe uma cena pós-créditos.

Leia as crítica do primeiro Annabelle, e de Invocação do MalInvocação do Mal 2.
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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

The Handmaid’s Tale

Nosso mundo não é perfeito, talvez por isso vivamos esquecendo: ele já foi pior e sempre pode voltar a ser. Basta apenas uma escolha errada. The Handmaid’s Tale é uma daquelas necessárias obras que vem para nos lembrar disso.

Nesta distopia passada em um futuro próximo de uma sociedade incomodamente muito parecida com a nossa, a humanidade passa por uma grave crise de fertilidade. Não demora muito para o medo da extinção criar o caos e uma nova ordem social se estabelecer nos Estados Unidos. A República de Gilead é um regime teocrático totalitarista, que reorganizou a sociedade em castas. Uma delas, as "Handmaids" (aias em português), é formada por mulheres comprovadamente férteis - leia-se que já tiveram filhos antes. Estas são designadas para as casas dos líderes governantes para gerar filhos para eles e suas esposas. 

É nesta situação que conhecemos a protagonista Offred, achou o nome estranho? Offred ="of Fred", literalmente "de Fred" em inglês, nome do comandante a que foi designada. Sim, nesta sociedade até mesmo os nomes destas mulheres foram retirados e elas não são as únicas em uma situação absurda.

Gradual e rapidamente, todos os direitos das mulheres são revogados, sem consulta, prévio aviso ou explicação, até o ponto em que elas passam a ser propriedade do estado. O que vemos através de bem colocados flashbacks de seu passado. Descobrimos também como o novo sistema foi implantado e a reação das diversas pessoas à ele. Desde aqueles que lutaram contra, até os que foram convencidos. Lavagem cerebral também está entre os temas, muitas das mulheres foram levadas a crer que seu novo "papel" é necessário para a humanidade, além de um dever divino. Técnicas de vigilância, controle e para evitar a união das "classes inferiores" também são mostradas em cena.


Mas a temática principal é mesmo o estupros ritualizados e mantido por lei, como ápice da exploração da mulher, mesmo as pertencentes às castas mais altas. As esposas dos comandantes também fazem parte do "ritual", e claro, não estão confortáveis com isso. Além da violência física, agressão moral e psicológica também são discutidas. As mulheres, não podem ter empregos, propriedades, ou mesmo ler. As aias não são mães dos bebês que geram, enquanto as esposas submissas ajudam seus maridos a terem filhos com outras, e criam as crianças posteriormente. E acima de tudo, são pessoas comuns que antes tinham trabalho, família, uma vida como a maioria de nós, o que torna todo o contexto uma realidade possível - e que existe sim de certa forma - fora das telas.

Apesar de levantar todas estas questões feministas The Handmaid’s Tale, não é uma série panfletária. O objetivo não é diminuir os homens, mas mostrar até onde uma sociedade pode chegar. E aliás já chegou em alguns momentos da história humana, e tem absurdos semelhantes ocorrendo no momento em que você lê este texto. O mundo totalitário e sexista da maternidade, é apenas uma das maneiras de que a humanidade pode "dar errado". E não é uma novidade, O Conto da Aia, livro de Margaret Atwood que inspirou a série foi lançado em 1985.

Nada disso no entanto teria impacto se a série não alcançasse a audiência coisa que ela consegue com uma bela construção de universo. O mindo de Gileard, é uma versão deliberadamente "atrasada" do nosso. A tecnologia existe, mas é limitada assim como a comunicação. As roupas são conservadoras tudo definido para supostamente criar um mundo "mais natural", que respeite o planeta e os preceitos desta religião extremista. O resultado é eventualmente nos surpreendermos ao ouvir a trilha sonora, cheia de clássicos modernos e percebermos que não se trata de uma produção de época. Jogando na cara do expectador novamente o fato de que esta realidade pode acontecer um dia.

 Essa construção também passa pelas cores. Uma fotografia desgastada e cheia de contra luz transforma aquele mundo em uma enorme pintura á óleo. Até o tom das roupas das mulheres tem seu propósito. Determinam seu papel naquele mundo e fazem um paralelo com figuras bíblicas. Enquanto os tons de azul e verde das esposas fazem alusão à virgem Maria, o vermelho das aias fazem paralelo com Maria Madalena. Além de as tornarem os elementos mais reconhecíveis e vívidos em cena, afinal são elas que trazem a vida. Mas vermelho também representa, agressividade, transgressão e desejo, muitas mensagens para apenas um figurino.

As atuações também chamam atenção, principalmente Elisabeth Moss. Conhecida por Mad Men, a atriz, vive uma protagonista bastante eloquente e articulada e cheia de opinião, mas que numa situação de repressão extrema, precisa - e consegue - transmitir tudo que pensa e sente através apenas de olhares, expressões e pequenos gestos. Samira Wiley (a Poussey de Orange is The New Black) que vive a melhor amiga de Offred, é eficiente mas tem um papel bastante parecido com que teve na série da Netflix. Yvonne Strahovski (Dexter, Chuck) acerta o viver a elegantemente contida Serena Joy, esposa do comandante da protagonista, que tem uma história muito mais densa que a fachada de "bela, recatada e do lar" demonstra. E por falar nele, o opressor chefe da casa é vivido por Joseph Fiennes.


A sempre excelente Ann Dowd (The Leftovers) continua intimidadora como a Aunt Lydia. A outra surpresa fica por conta de Alexis Bledel, a eterna Rory de Gilmore Girls, finalmente abandona os papéis de boa menina. Na pele de "Ofglen", não só encara seu trabalho mais denso e desafiador até então, como o faz muito bem. Basta dizer que à certa altura você esquece que ela já foi a Rory, pela primeira vez.

Falas inteligentes, e o bom ritmo do roteiro, apenas ajudam ao bom elenco entregar um trabalho intrigante e impactante. Não há como não parar para refletir a cada um dos dez episódios, ou ainda se preocupar com cada uma destas mulheres. Se a narrativa e as muitas discussões que a trama levanta não forem suficientes para você, o esmero visual ainda é um atrativo à parte, assim como a trilha sonora. The Handmaid’s Tale é uma das melhores surpresas televisivas do ano, e sua segunda temporada já foi confirmada. 

A parte ruim, é que a produção pertence a plataforma de streaming HULU, que não está disponível no Brasil. Mas este é um raro caso, em que encorajo as pessoas a assistirem, assim que puderem, como puderem. Além de excelente, a produção é um necessário lembrete de que o mundo pode "dar errado" a qualquer momento.
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