segunda-feira, 5 de junho de 2017

The Leftovers - 3ª temporada

Quando aprendi sobre o arrebatamento bíblico sempre me perguntei o que as "boas pessoas" escolhidas sentiam em relação àqueles que ficaram para trás. A pergunta voltou quando li A Última Batalha das Crônicas de Nárnia e os irmãos Pevensie não pareciam abalados por deixar Suzana para trás Aí vem The Leftovers e seu desfecho que coloca toda esta situação sob uma nova pespectiva. Mas é melhor parar por aqui, já que este spoiler seria grande.

Quando retornamos à Milagre, residência de nossos personagens desde a segunda temporada, já se passaram mais quatro anos desde os eventos na ponte. A "partida repentina" está prestes a completar sete anos, e ainda ninguém tem uma resposta para o evento que levou 2% da população mundial. As seitas nascidas do evento continuam a existir, evoluir, se modificar e multiplicar.

Mas não ficamos na cidade santuário por muito tempo, pois a série não perde tempo e encerra logo as jornadas dos personagens menores. Levou sete anos, mas a maioria está seguindo com a vida. O foco vai para as jornadas do chefe de polícia Kevin Garvey (Justin Theroux) e daquela que perdeu todos Nora Durst (Carrie Coon). Assim grande parte do elenco sai de cena, ainda nos primeiros episódios. Ficam apenas aqueles que podem ajudar a trama principal andar, alguns deles ganhando episódios próprios para encerrar seus arcos, que complementarão a a história do xerife e sua esposa.

O reverendo Matt Jamison (Christopher 'Doctor Who' Eccleston) está obcecado com uma nova crença absurda, mas tem suas motivações. John (Kevin Carrol) e seu filho Michael (Jovan Adepo) compartilham das crenças do pastor e de uma vida com Laurie (Amy Brenneman). A terapeuta passou a ser a figura materna da família depois que o casamento de John acabou. O casal, usa os conhecimentos de Laurie, para trazer paz às pessoas de uma forma não convencional. Já o pai de Kevin, Kevin Garvey, Sr. (Scott Glenn) está na Austrália se preparando para o grande evento que supostamente ocorrerá no sétimo aniversário do arrebatamento.


É na expectativa por essa data, e nos traumas ainda não cicatrizados do desaparecimento que residem as motivações dos personagens nesta temporada. Até que todos se encontrem de uma forma ou de outra do outro lado do mundo, na expectativa por algo grandioso que está por vir, na busca por resposta, ou simpesmente por paz.

E por falar em respostas, é nas muitas dúvidas criadas pela série e na forma como essas respostas seriam reveladas, ou não, que residiam os maiores temores dos fãs da série. Em grande parte por causa de seu criador Damon Lindelof (um dos responsáveis por Lost). Mas, enquanto na série da ilha muita gente ficou insatisfeita com o desfecho determinado, The Leftovers entrega sim um final forte e impactante, mas não definitivo. Você escolhe ou não acreditar nos personagens, e nas coisas que eles acreditam. Especialmente em Nora que é quem aborda a "partida repentina" diretamente, em um emocionante monólogo - excelente trabalho de Carrie Coon. - Garvei atende às aflições do "deixados para trás", suas perdas e medos pelo futuro incerto.

A "explicação de Nora" é uma resposta excelente e impactante, mas nem de longe é uma solução. E creio que esta nunca fora sua intenção. O monólogo traz um novo viés de discussão que dialoga com minhas dúvidas lá do parágrafo inicial deste texto. E esta possibilidade de cada um interpreta-la do seu jeito é maravilhosa.


Desde de seu início  The Leftovers nunca foi sobre os desaparecidos, ou uma busca por respostas sobre o evento que os levou. Sempre se tratou daqueles que ficaram para trás, as diversas reações que um evento desta magnitude traria, os traumas e as formas de se recuperar, ou não de tudo isso. Se tivesse mais audiência e, consequentemente, mais tempo não duvido que a série buscaria um desfecho mais detalhado para todos os personagens desta "nova sociedade"- eu queira um desfecho melhor para muitos deles. Mas a escolha por focar em Nora e Kevin e aqueles que o cercam é mais que acertada. 

Faltou apenas mencionar que a série faz tudo isso com uma linguagem poética e recheada de metáforas. Deixando muitos dos expectadores pensando sobre os episódios por dia, e fazendo os desavisados que passaram pela sala durante a transmissão se perguntarem que diabos está acontecendo na tela. Profunda, complexa, inteligente The Leftovers não segue caminhos fáceis para contar sua história. E provavelmente pagou por isso com a audiência, para aqueles que persistiram a recompensa é gratificante. Esta é uma das melhores séries que você vai ver, e provavelmente a mais "fora da casinha" de todas!

The Leftovers é uma produção da HBO, baseada no livro homônimo de Tom Perrota. Leia as primeiras impressões da série, e as críticas da primeira e da segunda temporadas. 

2 comentários:

Cleber Eldridge disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cleber Eldridge disse...

Quando as pessoas dizem que a HBO é sinônimo de qualidade, acho que eles estão certos. Para quem achou que iria haver alguma explicação para o desaparecimento, acho que estavam buscando o errado na série, que mostrava com a maior clareza possível, que era sobre sentimentos, que final belíssimo!

http://21thcenturycinema.blogspot.com.br/

 
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