quarta-feira, 22 de março de 2017

Power Rangers

Assistindo Power Rangers mesmo ainda enquanto criança, quando a franquia de heróis virou uma febre lá nos anos de 1990, já percebíamos que algumas coisas não eram exatamente o que nossas mentes infantis imaginavam. Não que isso importasse muito na diversão ou vontade de assistir, mas sabíamos que o excesso de cores e os vilões eram meio cafonas e que as pessoas nos trajes de heróis não eram as mesmas que víamos "morfar". Incluindo a sensação estranha de que a pessoa dentro do colante amarelo mais parecia um homem (é porque era mesmo!). É claro, só depois de mais velhos, e com acesso à internet, que a maioria de nós descobriu que o programa era um quebra cabeças que misturava cenas de ação do Super Sentai original do Japão com cenas de atores americanos, para tornar mais "acessível" para o público ocidental. Informação que que também não tem nenhum impacto na memória afetiva de quem cresceu assistindo, ou da molecada que ainda acompanha as aventuras dos heróis coloridos.

Entretanto, é provavelmente por causa dos fãs mais velhos, somado à popularidade dos heróis nas telonas e o sucesso da franquia de robôs gigantes Transformers, que o revival dos Rangers na tela grande se tornou uma possibilidade. A grande questão seria acertar o tom, já que além de falar com o grande público, o novo filme teria que agradar os fãs, muitos deles já adultos e com critérios de qualidade mais rígidos. Manter o tom juvenil, sem ficar caricato e ainda causar nostalgia era o desafio. Descomplicar e retornar à primeira e mais simples versão da equipe foi o primeiro passo.

Assim Jason, Zack, Billy, Trini e Kimberly (cujos nomes só sei de cor necessariamente nesta ordem graças ao hit de Sandy e Júnior) mal se conhecem apesar de morarem na pequena Alameda dos Anjos. Mas, por circunstâncias diversas, acabam juntos em uma pedreira onde encontram pedras mágicas de diferentes cores. Depois de descobrirem que foram afetados pelos artefatos os jovens se reúnem em busca de uma explicação, descobrem a existência de Zordon e da vilã Rita Repulsa a quem precisam derrotar, já que agora são os portadores dos poderes dos cristais, os novos Power Rangers.

Sim, é a mesma historinha da TV, simples e direta, bem contra o mal. A diferença aqui, é que o filme se preocupa em apresentar os protagonistas e criar uma conexão entre eles. São cinco "histórias de origem" a serem trabalhadas em apenas duas horas de projeção, além da ameaça principal, logo não espere dilemas muito complexos ou um grande aprofundamento. No geral, os novos Ranges temos mesmos problemas dos adolescentes de hoje, aceitação, preocupação com o futuro, conflitos com os pais. E alguns desses temas como assumir responsabilidades de adultos e orientação sexual são apenas citados, mas não explorados. Mesmo assim, já é muito mais do que a série de TV entregava.

Além disso, Jason (Dacre Montgomery), Zack (Ludi Lin), Billy (RJ Cyler), Trini (Becky G) e Kimberly (Naomi Scott), também precisam conhecer uns aos outros, criar uma amizade antes de poderem formar uma equipe. Entram aqui momentos de referência a clássicos de temática adolescente como Clube dos Cinco, Conta Comigo e filmes mais recentes Poder Sem Limites e Projeto Almanaque (este último do mesmo diretor de Power Rangers, Dean Israelite). Uma boa escolha, especialmente porque o grupo de atores funciona bem junto, embora alguns se saiam melhores do que outros. Montgomery, Ranger Vermelho e suposto líder da equipe, é o menos expressivo, enquanto o Cyler, intérprete do Azul, rouba a cena.


Essa escolha de focar nos personagens, e deixar a batalha para mais tarde pode não soar tão bem para quem busca muita ação, inclusive alguns fãs. O grupo demora bastante para assumir os uniformes - que agora na verdade são armaduras -  bem como para se engajar em lutas, com ou sem os figurinos coloridos. Porém quando finalmente o fazem, sobra referência, nostalgia e fã-service para todo lado.

Os efeitos especiais não são incríveis, mas funcionam. Outra escorregadela, aos olhos de alguns, pode ser um ponto de virada, mais dramático perdido no meio do bem-humorado roteiro. Já direção de arte atualiza o visual para 2017 mantendo o colorido, sem o alto nível de cafonice. Isto é, para os dias de hoje, vamos ver se os novos visuais sobrevivem ao teste do tempo - provavelmente não.

No elenco "adulto" Bryan Cranston dá vida Zordon, em uma interpretação que não exige muito dele. Enquanto, Elizabeth Banks parece se divertir - e também diverte - com a malvadeza pura e o visual extravagante de Rita Repulsa.

Divertido, visualmente interessante e mais focado nos personagens que na ação, o novo Power Rangers não é um filme perfeito. Muito menos traz dilemas adolescentes ou, mesmo heroicos, muito complexos, e nunca pretendeu trazer. Mas acerta no tom, tem coerência visual, é bem produzido, e tem um elenco entrosado, além de falar tanto com fãs quanto com o grande público. Se já era um fenômeno, quando eram apenas uma equipe de heróis coloridos com design caricato e tramas rasas e cheia de falhas, imagina agora!

Power Rangers
2017 - EUA - 124min
Aventura/Ação/Ficção científica

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