quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Grande Muralha

Então, em um belo dia em alguma sala de executivos uma conversa parecida com esta deve ter acontecido:

- Precisamos de um blockbuster, algo novo, grandioso impressionante, e que agrade ao maior número de pessoas possível.
– Poderíamos fazer um filme com tudo que as pessoas estão curtindo no momento, tipo aliens, estão sempre na moda. Fantasias medievais estão em alta, com grandes batalhas e exércitos numerosos. Mulheres na liderança também estão em alta, aquele “negócio de empoderamento”. E não se esqueçam da China, é um grande mercado. Coloca um mistério também. Ah, e os latinos precisam ser representados, então contrata alguém. Arremata com um astro de Hollywood e explosões que vai ser um sucesso.
– Perfeito manda para a sala dos roteiristas e eles que deem um jeito de juntar isso tudo!

Este é o único cenário possível que posso imaginar para justificar a existência de A Grande Muralha. No século XV, William Garin (Matt Damon) e Pero Tovar (Pedro Pascal) estão atravessando o mundo em busca de um lendário pó negro chinês que pode derrubar vários homens de uma só vez, quando se deparam com a grande imponente e misteriosa muralha da China. Esta, diferente do que acreditamos não foi construída para conter invasores humanos, mas para uma ameaça muito maior.

Além da muralha, os chineses também mantêm um enorme e bem equipado exército à postos na muralha para conter os ataques cíclicos dos monstros. Entre eles a Comandante Lin Mei (Jing Tian) responsável por um pelotão formado só por mulheres e com habilidades peculiares. Perdido por lá também está o “misterioso” Ballard (Willem Dafoe) um ocidental vivendo entre chineses.

William e Tovar é claro, são capturados e precisam convencer o exército de suas boas intenções. Eles o conseguem ao relatar o confronto com uma criatura misteriosa que tiveram pouco antes de chegar à muralha. Acontece que o monstro é o mesmo que os chineses combatem: seres alienígenas que atacam a cada 60 ano e devoram tudo pelo caminho. Sim, a Grande Muralha da China foi construída para impedir ataques alienígenas. E sim, eu te dei um spoiler, mas não se preocupe, você deduziria isso após uns 15 minutos de projeção, mesmo com todo mistério que tentam criar.

Até seria crível esta função incomum para um dos maiores monumentos da humanidade, se o longa abraçasse de vez a fantasia. Ou melhor ainda, desassociasse a muralha da China e criasse um novo universo (funcionou para Westeros). Mas o longa não apenas insiste em se levar muito a sério como épico de guerra e abusa dos clichés e soluções mais óbvias.

Assim, a China tem uma fortificação monumental, um exército treinado por séculos exclusivamente para enfrentar o inimigo em questão, todo tipo de arma branca que você pode imaginar, e algumas que você não tinha pensado, gente louca o suficiente para saltar literalmente nos bichos e pólvora. Mas nada disso é suficiente, eles precisam de um mercenário ocidental caucasiano para lhes ensinar como matar os monstros que ele acaba de descobrir que existem. É impressão minha ou soa meio ofensivo para os chineses?

Tem também a tentação de roubar o pó negro, traição entre parceiros, a escolha e lutar pela honra, a jovem comandante que precisa se provar.... Ah! E escalar Willem Dafoe para interpretar aquele cara que você já sabe de só de olhar que não deve confiar, que ele faz sempre. Todas escolhas mais previsíveis possível.

As cenas de ação são bem filmadas, afinal foram realizadas por Zhang Yimou, diretor de Heroi (2002) e O Clã das Adagas Voadoras (2004), com orçamento hollywoodiano. Mas sem apego aos personagens caricatos e mal construídos, a emoção cai pela metade. A suspensão de descrença deixa de existir, tornando evidentes aquelas acrobacias impossíveis que costumamos deixar passar em outros filmes de ação.

A direção de arte também estava inspirada, criando elaboradas armaduras com cores diferentes para cada unidade do exército e uma china colorida e vibrante. Mas como já mencionei, o longa não abraça a fantasia. Assim as armaduras de múltiplas cores parecem uma versão chinesa dos Power Rangers. E em alguns momentos você vai se preguntar por que galerias de esgoto tem iluminação “estilo arco-íris”?

Power Rangers edição China Medieval
A Grande Muralha traz muitas coisas que adoramos e/ou estão em alta, amaradas por um argumento fraco. O desenvolvimento batido do enredo não ajuda, especialmente por priorizar a ação ininterrupta, e dedicando pouco ou nenhum tempo para ao menos tentar desenvolver os personagens. Fazer o espectador se importar com ao menos um deles para ter por quem torcer. Na tentativa de agradar e alcançar muitas pessoas, provavelmente vai conquistar pouquíssimas.

Honestamente, eu não esperava um grande enredo de A Grande Muralha. E entrei na sala escura pronta para encarar um filme pipoca, divertido e facilmente esquecível. E que surpresa, não vou esquecer deste filme tão cedo e dei muitas gargalhadas involuntárias durante a sessão. Infelizmente, não por bons motivos.

A Grande Muralha (The Great Wall)
EUA - 2016 - 104min
Aventura/Fantasia

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