sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Westworld - 1ª temporada

O Ministério dos Série Maniacos adverte: este texto contém spoilers da primeira temporada de Westworld.

Logo no inicio do primeiro episódio de Westworld ouvimos a seguinte pergunta: Você alguma vez questionou a natureza de sua existência? - Destinado à Dolores (Evan Rachel Wood) o questionamento retorna algumas vezes durante a série. E é ele que vem logo em mente quando Felix (Leonardo Nam), percebe que se quem julgava ser humano, não é. Quem ele mesmo seria?
A natureza da existência, humana ou robótica, está no centro do labririnto da narrativa desta série da HBO. Ativo há mais de 30 anos, o parque que recria o velho-oeste começa a passar por problemas, quando alguns dos anfitriões (robôs super-realistas) que o povoam, começam a apresentar defeitos, tornando-se um risco para os visitantes.

A partir daí acompanhamos diversas jornadas em busca da verdade. As tramas não fazem distinção de importância entre robôs e humanos, muito menos identifica mocinhos, vilões ou protagonistas. Todos são o centro de suas respectivas narrativas.

Assim temos a administração do parque tentando lidar com os problemas do dia-a-dia. O conselho executivo tentando ter mais controle de sua empresa. O criador Dr. Ford (Anthony Hopkins) protegendo seu legado. Do lado de fora, no parque, dois turistas vão à fundo na experiência. O principiante William (Jimmi Simpson) e o veterano Logan(Ben Barnes) não serão mais os mesmos depois de percorrer quase todo o parque. A anfitriã Dolores e o misterioso Homem de Preto (Ed Harris) também estão em uma busca, que mais tarde se mostra mais semelhante que imaginamos. Enquanto Maeve (Thandie Newton) começa a ter consciência de sua existência e resolve conhecer seus criadores.

A pegadinha? A forma como estas histórias interferem e influenciam uma à outra, e a estrutura em que são apresentadas transformam a narrativa em uma experiência única. Lisa Joy e Jonathan Nolan brincam com linhas temporais, sobrepostas, encaixadas e difíceis de distinguir. Assim como com percepção, já que por vezes mudamos de ponto de vista, e como expectadores podemos ver apenas o que o anfitrião é programado para ver. - Quem mais ficou aflito por Bernard não conseguir ver uma porta?

O resultado é um trabalho de construção de narrativa complexo e belo, que mantém o interesse do expectador mesmo quando suas teorias se provam verdadeira. Não surpreende pelo que é, mas pela forma que é. Repetições, referências, detalhes imperceptíveis inicialmente e rimas narrativas dão as pistas sutis (ou não) deste intricado mundo. O que torna a reprise da temporada também uma experiência a ser considerada.

Você vai notar coisas que não vira antes, ou entender a importância de certos detalhes, agora que conhece toda a jornada. Mais ou menos como os robôs ao começarem adquirir consciência e compreender sua natureza.

Como se um roteiro impecável e amarradinho não fosse o suficiente, a série tem um valor e requinte de produção impressionantes. Belas locações, figurinos que compõem (e as vezes até identificam e situam) personagens. Direção de arte caprichada e efeitos especiais que não pouparam despesas (confira a impressionante versão jovem do Dr. Ford).

O elenco de peso completa o pacote. Hopkins entrega um criador/deus daquele mundo que vai entrar ao lado de Hanibal Lecter entre os ícones de sua carreira. Evan Rachel Wood, Thandie Newton e Jeffrey Wright entregam atuações cheias de nuances peculiaridades que impressionam tanto quanto a habilidade de oscilar entre a versão "mais humano" dos anfitriões e o robótico "modo de análise". 

Pausa aqui para mencionar o impressionantes trabalhos de Michael Wincott, um dos mais antigos robôs do parque Old Bill, seu personagem se move impressionantemente como aqueles animatronicos de parques de diversões dos dias de hoje. E de Louis Herthum, o Abernathy original que com apenas um surto nos intrigou por uma temporada inteira.

De volta ao elenco principal, a transformação de William em Homem de Preto (Ed Harris) impressiona, mesmo que todos já tivessem descoberto a reviravolta. James Marsden, Rodrigo Santoro, Luke Hemsworth, Sidse Babett Knudsen, Angela Sarafyan, Shannon Woodward, Leonardo Nam, Ingrid Bolsø Berdal, Talulah Riley, Tessa Thompson, Simon Quarterman, completam o elenco afinado.

Comparado à um Blade Runner no velho-oeste, Westworld traz de volta diversos questionamentos da ficção-cientifica em relação à inteligência artificial, seus limites e a relação com os falhos humanos/criadores. Tudo isso de uma forma inteligente, sem subestimar o expectador e ainda acessível para o grande público. Nem precisava responder todos os mistérios daquele mundo, mas resolve. Situando um mundo ainda mais abrangente e cheio de impasses para a segunda temporada sem precisar do supra-usado gancho.

Inspirado pelo filme escrito e dirigido por Michael Crichton em 1973, Westword dá uma abordagem atual e explora melhor as possibilidades do argumento. É a melhor surpresa na TV de 2016. Que venha logo não apenas a segunda, mas as quatro temporadas programadas!

Westworld é exibida pela HBO, está disponível na HBO Go e ganhará uma maratona no canal no próximo sábado 10 de Dezembro. Corre para assistir!

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