quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O Lar das Crianças Peculiares

O adolescente Jacob (Asa Butterfield) presenciou a morte trágica de seu avô, que em seus últimos momentos lhe deixa uma mensagem esquisita e um trauma. E embora todos achem que tudo se trate dos devaneios de um velho, o garoto acredita que precisa tentar entender a mensagem, para se despedir apropriadamente do avô. A jornada o leva a uma ilha galesa, e a um orfanato envolto de mistérios. Além claro de uma ameaça iminente à espreita, para deixar tudo mais emocionante.

E isto é o máximo que podemos contar na sinopse sem estragar parte da experiência de O Lar das Crianças Peculiares. Descobrir e entender como funciona esse lar, o que significa "ser peculiar" neste contexto, e a ligação deste orfanato com o avô de Jacob, Abe (Terence Stamp), é parte impostante da jornada, que desvendamos ao lado do protagonista.

Entretanto podemos dizer que a Srta. Peregrine (Eva Green), protege crianças especiais dos perigos do nosso mundo real, e do universo de fantasia criado por Ranson Riggs. Personagens estranhos e excluídos sempre estiveram presentes na filmografia do diretor. Logo, uma história que envolve um grupo reunido por esse sentimento parecia perfeito para Tim Bruton. E no geral é!

Com um ritmo acelerado desde o início (pois há um universo para apresentar), o filme começa com um tom de mistério. Quando este é desvendado já após metade do filme, o tom muda e se torna uma aventura cheia de perigos e efeitos especiais. Com um elenco de crianças carismáticas escolhido à dedo, fica difícil não torcer por elas, ou no mínimo se encantar com as menores. A exceção fica por conta de Enoch (Finlay MacMillan), além de alterado em relação ao livro para criar um antagonismo (desnecessário) à Jacob, o interprete é o menos natural do grupo. E as motivações que criaram para seu comportamento são rasas e nada originai: é ciúme adolescente.

Mas o trabalho pesado fica por conta de Butterfield, que com outras quatro adaptações literárias no currículo, fez bem seu dever de casa. Jacob se sente um garoto exageradamente comum, ao ponto de ser chato, e o adolescente consegue passar esse sentimento nos poucos minutos reservado à apresentação do personagem. Daí em diante, ele acha que está ficando louco, antes de descobrir que também é importante e crescer com isso. Quem não quer ter essa sensação, ao menos uma vez na vida?

Já Eva Green parece ter escolhido, interpretar a tutora das crianças como uma mistura da Babá McPhee e da Bruxa Angelique (de Sombras da Noite). Exagerada e cheia de trejeitos, oscila freneticamente entre uma figura simpática e uma mulher cheia de segredos. A mudança a faz soar um pouco mais caricata que o resto do elenco. E talvez lembre aos fãs mais ferrenhos de Bruton, que talvez Helena Bonham Carter (ex-exposa e parceira do diretor) acertasse o tom.

Eva Green aliais é a única do elenco que reprisa a parceria com o diretor. Habituado a trabalhar com os mesmos atores, Burton parece decidido à mudar de ares. E a bem vinda nova escalação, traz para o elenco Samuel L. Jackson, Judi Dench, Rupert Everett e Allison Janney. O destaque adulto fica por conta de Jackson aproveitando a liberdade de um filme de fantasia para exagerar e se divertir com isso.

Diferente do livro em muitos aspectos, mas mantendo sua trama central. O longa parece alterar alguns detalhes com a intenção explorar melhor as peculiaridades das crianças. Incluí todas no clímax (no livro o foco é em um grupo pequeno) e tornar toda a ação mais grandiosa e espetacular. A reorganização funciona, mas fãs devotados da versão literária podem não aceitar tão bem assim tantas mudanças.

Outro detalhe curioso é que embora hajam espaço para continuar a história. O filme não deixa grandes ganchos para uma trilogia como é na versão impressa. É possível fazê-las, há mitologia para isso. Mas se as sequencias não acontecerem o expectador comum não vai ficar com a sensação de história não concluída. Se isto é uma especie de "seguro" diante das várias adaptações fracassadas de franquias literárias dos últimos anos. Ou se a produção está indo na contra-mão de Hollywood e resolveu propositalmente contar sua história em apenas um filme, não sei dizer.

O que posso afirmar é que o 3D é eficiente, mas não indispensável. E que apesar de ter o jeitinho bizarro familiar ao diretor desde que era apenas um livro. A história das crianças peculiares traz um frescor à filmografia do diretor que aos olhos de muitos já se tornava repetitiva.

O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's Home For Peculiar Children)
2016 - Eua, Bélgica, Reino unido - 127min
Aventura/Fantasia

Confira a crítica do livro O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares de Ransom Riggs, no qual O Lar das Crianças Peculiares foi baseado.

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