quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Em Chamas

É o segundo livro, e já estamos acostumados com o estilo solitário e conflitante da narrativa, que nos apresenta duas Katniss. Aquela que narra a história, reflete sobre os acontecimentos e consequentemente fala demais conosco. E a que os outros personagens enxergam, um bichinho do mato, caladona e meio antissocial que tenta lidar com o sistema de sua sociedade distópica.

Pensando melhor agora são três versões de uma mesma garota, já que tendo sobrevivido aos jogos, e principalmente de forma inédita. A garota também tem uma imagem pública para manter. É hora de percorrermos toda a Panem durante a turnê dos vitoriosos e convencer a cada distrito e ao Presidente Snow, que o ato de desafio que levou Katniss e Petta a ser o primeiro casal vencedor do "Big Brother dos infernos", foi um ato de amor, não de revolta. Mas quando a semente da revolta é plantada, cresce feito erva daninha, e medidas extremas serão tomadas para manter a ordem da Capital.

Em Chamas, segundo livro da trilogia distópica de Suzane Collins, finalmente se aprofunda mais na política e cultura daquele universo. Se antes estávamos restritos ao dia-a-dia do Distrito 12 e dos participantes dos Jogos. Agora temos vislumbres de cada distrito, suas reações à 74ª edição da competição, e principalmente a forma que a Capital lida com seus vitoriosos, sua política de controle e ameaças em potencial.

A discrepância entre a qualidade de vida entre minoria rica e o resto do pais fica mais evidente, à medida que os protagonistas são inseridos neste meio. Temas como a manipulação midiática, alienação, fome, tristeza, opressão, instinto de auto-preservação, proteger o próximo, lidar com as consequências de seus atos, relacionamentos amorosos, não apenas retornam à discussão, como agora são abordados sob uma nova luz. Não apenas porque agora Katniss pode, querendo ou não, participar do lado "privilegiado" da sociedade, mas também poque a sociedade está mudando.

Os distritos estão se rebelando (já era hora), após 75 anos de opressão e assassinato televisionado de crianças. Enquanto a Capital, utiliza seus últimos recursos em um último esforço midiático para manipular as massas. Evidentemente, tudo isso é desenrolado aos poucos, e seus detalhes e nunces só serão compreendidos completamente ao fim do livro, ou mesmo de toda a trilogia.

Afinal ainda acompanhamos toda a história através dos olhos da protagonista. A narrativa em primeira pessoa, feita por uma adolescente teimosa, confusa e que constantemente não pode enxergar todo o contexto, deixa o leitor propositalmente sem algumas informações importante. Fica a nosso cargo tentar compreender as pistas deixadas pelas atitudes de outros personagens que interagem com Katniss e tentar compreender o que está acontecendo. Adicionando ao já perigoso jogo midiático um interessante mistério.

Mas não me leve a mal. Apesar de não compreender exatamente todo o universo que a cerca, nossa protagonista nem de longe é alienada ou passiva, e está todo o tempo aprendendo, ou ao menos tentando, com suas experiências. Some-se aqui também, que ela também tenta compreender quem é e o que realmente sente agora, que produto da capital.

Diferente de Jogos Vorazes, que poderia ser lido como uma aventura solo (se você for capaz de resistir a curiosidade por aquele universo), o final de Em Chamas é em meio à um climax, cheio de pontas soltas e com um grande gancho para o grandioso final. Em outras palavras, se você foi um dos que xingou os roteiristas da adaptação cinematográfica por causa do tenso final em aberto, peça desculpas! Pois é assim mesmo que o livro termina.

Neste volume um tom de urgência, e aumento crescente do perigo é acrescentado à esta franquia inteligente e divertida, que não subestima seus jovens leitores. Os complexos temas e arcos das personagens continuam a ser desenvolvidos, ainda com umas linguagem simples e acessível. Em Chamas é uma continuação, competente, coerente em uma rara boa franquia para jovens leitores.

Em chamas (Catching Fire)
Suzanne Collins
Rocco


Leia também a resenha do primeiro livro Jogos Vorazes e das adaptações cinematográficas Jogos Vorazes, Em Chamas e A Esperança - parte I.

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