quarta-feira, 25 de junho de 2014

A Culpa é das Estrelas

Se você é cinéfilo ou mesmo leitor de carteirinha, já deve saber: a expectativa pode arruinar sua experiência com o produto. Entretanto, por mais que se tente evitar, é difícil passar impassível diante da comoção gerada por algumas obras, A Culpa é das Estrelas é um desses casos.

Como agravante, esta blogueira que vos escreve particularmente, tem um "pé atras" com filmes, séries, novelas e livros que usam a doença como foco de todo o drama. Pois, geralmente, estes tendem a restringir o personagem à sua doença, e nada mais. Além de tentar inferiorizar qualquer outro problema que não seja a doença. É como se este tipo de obra dissesse: pare de reclamar de seus problemas bobos, tem gente passando por coisa pior que você!

Felizmente, não é esse o caminho que o longa baseado no best-seller fenômeno de John Green. Isso pode ser notado em sua versão mais curiosa, na forma irônica em que aborda as sessões de auto-ajuda que a protagonista é obrigada a ir. Os frequentadores se apresentam: nome+doença. Fica claro, não é das reuniões mais animadoras. Não sei qual a força dessa estratégia "encare a doença de frente e tenha orgulho disso". Mas acharia muito mais produtivo conhecer essas pessoas, além da doença, seus interesses, talentos... Mas vamos ao filme.

Hazel Grace (Shailene Woodley) diagnosticada com câncer terminal mas sobrevivendo com uso de uma droga experimental, é obrigada por seus pais a frequentar um grupo de apoio, para "afastar a depressão". Lá conhece Augustus Waters (Ansel Elgort), um sobrevivente, perdeu uma perna mas "ganhou" da doença, em estado de remissão há tempos. E como os opostos se atraem, é claro eles tem formas bem diferentes de lidar com sua vida. Ela quer minimizar os danos de sua passagem e inevitável partida precoce. Ele quer deixar sua marca no mundo.

Em comum, a forma de parodiar os problemas, ao invés de tomar o tradicional posto de vítima cheia de auto-piedade. Tom, que acertadamente permeia todo o longa, e traz uma leveza e comicidade difíceis de se conseguir com um tema tão pesado. Impossível não achar graça quando os protagonistas numeram "os privilégios do câncer", quando mencionam as facilidades criadas por aqueles que tem pena. E mais ainda quando em um ato genuinamente adolescente irresponsável, ajudam um amigo em um pouco elaborado plano de vingança e se gabam que juntos, o trio tem "5 pernas, 4 olhos e 2 pulmões e meio" a serem enfrentados!


Afinal são adolescentes, e além de questionamentos profundos sobre vida e morte. Eles também tem os questionamentos e conflitos típicos da idade. Muitas questões e a consciência de que tem pouquíssimo tempo para sana-las!

Escrito pela dulpa Scott Neustadter e Michael H. Weber (500 Dias com Ela), o roteiro traz o mesmo tom minimalista e fofo, visual e narrativamente. Para isso abusa da relação de seu casal protagonista, dando pouquíssimo tempo de tela a seus coadjuvantes. Embora as participações destes sejam pontuais, como a realidade amarga do personagem de Willem Dafoe. Ou mesmo a preocupação constante, e afetuosa da mãe vivida por Laura Dern.

Enquanto isso Woodley (infinitamente melhor aqui, que como a fraca Beatrice de Divergente) Elgort, esbanjam carisma, para carregar a história dos amantes desafortunados, errônea e constantemente comparados com Romeu e Julieta. Os amantes de Shakespeare não tinham tanta consciência de suas limitações como Hazel e Guz.

Honesto e simples, talvez até simples demais. O diretor escolhe os planos mais comuns e alguns até cafonas para algumas sequencias (repara se a sequencia em Amsterdã não tem um "que" de filme turístico). Um pouco mais ousadia poderia dar um pouco mais ritmo a narrativa. Nada que comprometa muito, os narizes fungando na escuridão da sala de projeção provam isso.

A Culpa das Estrelas é sim um romance sobre pessoas com câncer. Mas prefere dar enfase as pessoas, e não a doença. Comove pela empatia com aquelas personagens, e não por sua "desgraça". O longa também é uma adaptação best-seller, consequentemente cercado de expectativas. Talvez não consiga excedê-las, mas também não decepciona. É um bom filme, não vai mudar o mundo, mas deve fazer a diferença para alguns que precisem dele.

A Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars)
EUA - 2014 - 125 min.
Drama / Romance

P.S.¹: Sim, o casal protagonista Shailene Woodley e Ansel Elgort são irmãos na franquia Divergente. Por isso você os ache estranhamente familiar juntos um uma primeira impressão

P.S.²: É possível que você saia da sala se perguntando o significado do título. Segundo o autor é uma referência a uma frase de Shakespeare. - "A culpa, meu caro Bruto, não é de nossas estrelas / Mas de nós mesmos, que consentimos em ser inferiores." - Júlio César. Não li o livro, não sei se nele existe a referência, mas no longa passou batido, e a dúvida ficou.

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