segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Como viver a vida, segundo a Globo

Atualmente sou uma cinéfila seriemaniaca, mas confesso ja tive minhas fases de noveleira. Quando criança era mais frequente, agora elas vem e vão. Por isso achei super coerente postar aqui esse texto de Leandro Vieira*. Uma reflexão interessante (diferente) sobre novelas. Será que estamos conscientes do que estamos vendo. Pense nisso!

Como viver a vida, segundo a Globo
É fato: as novelas da Globo e seus programas de grande audiência continuam ditando normas, valores e costumes. Volta e meia ouvimos alguém soltar famosos bordões como “hare baba”, “tô certo ou tô errado?”, “né brinquedo não”, “ishalá”, e outros consagrados pelos folhetins globais.

Antes que alguém levante a mão para perguntar, esse texto tem, sim, muito a ver com Administração. Qualquer evento que influencie, direta ou indiretamente, o nosso comportamento é extremamente importante para a forma como conduzimos os nossos negócios. Não é à toa que os grandes anunciantes disputam a peso de ouro o horário nobre da televisão brasileira - bem como os próprios atores. Da mesma forma, as grifes (re)direcionam suas coleções aos estilos exibidos pelas belas e influentes atrizes das novelas, mesmo que essas se passem em lugares exóticos como Índia e Marrocos, ou genuinamente brasileiros como Barretos, Rio e São Paulo. Até pouco tempo atrás, muitas moças estavam usando parte do sutiã à mostra, para imitar o modelito de Norminha, a simpática – e faceira – personagem interpretada recentemente por Dira Paes. Novelas ditam modas e, como administradores, devemos estar atentos.

Espanta-me essa última, que traz o curioso título de “Viver a Vida”. Apesar de apresentar depoimentos emocionantes de pessoas reais que superaram grandes problemas no final dos episódios, Viver a Vida dá um show de deturpação de valores do começo ao fim de cada capítulo.
Normalmente, as obras de ficção dividem claramente as pessoas entre boas e más, o certo e o errado são evidentes, e nos colocamos a torcer pelo sucesso do protagonista e o castigo dos vilões, como o fizemos em A Favorita, com o duelo entre Donatela e Flora.

Na novela de Manoel Carlos, esse dualismo não existe. Com a desculpa de aproximar seus personagens da realidade, o autor lhes confere virtudes e defeitos. Entretanto, paira um ar de normalidade sobre todas as safadezas cometidas pelos personagens, que eu chego a me perguntar o que ele quer dizer, realmente, com “viver a vida”.

Viver a Vida é uma novela onde praticamente todos os personagens enganam uns aos outros. O marido trai a esposa com a prima dela, a esposa trai o marido com o cara da academia, o outro troca a companheira de uma vida inteira por uma modelo 30 anos mais jovem , que agora já vive um affair com o sujeito que conheceu no meio do deserto (que corre o risco de ser filho de seu próprio marido), irmãos (gêmeos!) disputam a mesma garota... ufa! E tem muito mais, mas não quero tirar a paciência do leitor com essas picuinhas.

Onde mora o perigo?

Diversos estudos, em especial os conduzidos pelo Prof. Robert B. Cialdini, da Arizona State University, demonstram que temos uma grande tendência a fazer o que a maioria faz – mesmo que seja um comportamento socialmente indesejável. Segundo Cialdini, somos naturalmente maria-vai-com-as-outras.

Manoel Carlos gasta o seu latim para provar que trair é algo normal, que todo mundo trai todo mundo e não há nada reprovável nisso. Pelo contrário: é até algo bonito, poético. As puladas de cerca ocorrem sempre com o belíssimo pano de fundo da cidade maravilhosa ao entardecer, do alto de uma asa delta, ou nas areias paradisíacas de Búzios, ao som de uma belíssima trilha sonora. Sei lá, sei lá...

Há algum tempo, havia em minha cidade um jornalzinho que circulava entre os colégios, cuja maior atração eram os recadinhos que os alunos postavam uns para os outros. Depois que Aline Moraes interpretou uma jovem lésbica em uma novela, houve uma explosão de recados (românticos) de garotas para garotas. Não estou fazendo juízo de valor no que diz respeito às escolhas sexuais de ninguém. Entretanto, desconfio que muitos desses recados não tinham nada a ver com a sexualidade dessas garotas. Elas apenas queriam ser a Aline Moraes... Imagino que, se a personagem da bela atriz fosse interpretada por Regina Casé, o efeito no jornal teria sido nulo ou completamente inverso.

Mesmo sabendo que o comportamento é uma potente fonte de influência social, geralmente as pessoas que participam de estudos de psicologia social dizem com veemência que o comportamento alheio não influencia o seu próprio. Você aí do outro lado também deve estar dizendo que isso é uma grande besteira, que você não é influenciado por novelas, nem por ninguém. Beleza. Mas, com certeza, você conhece um monte de gente que adora seguir a maioria. O perigo está na mensagem, repetida diariamente à exaustão, justamente no horário em que a maioria dos televisores sintoniza a rede do plim-plim. Muita gente assimila o comportamento dos personagens como adequado, moderno e normal. A novela de Manoel Carlos é a receita para o fracasso de uma sociedade que tem (ou já teve?) na família o seu mais firme alicerce. Viver a vida, de verdade, é muito mais do que isso. Tô certo ou tô errado?

*Leandro Vieira é Mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Certificado em Empreendedorismo pela Harvard Business School. Tem MBA em Marketing, pelo Instituto Português de Administração e Marketing (IPAM) . Administrador de Empresas pela UFPB e bacharel em Direito pelo UNIPÊ. Foi professor da Escola de Administração da UFRGS. Criador e Editor do Portal www.Administradores.com.br.

3 comentários:

Daniel Caetano disse...

Perfeito o texto.
E olha que curioso: eu aprendi com meu pai, ainda criança, a ter reservas com relação ao que eu leio, escuto e vejo - em especial na mídia, pois sempre tem algum interesse por trás, e nem sempre é fácil identificar qual é. No caso, ele sempre usava a própria Globo para dar o exemplo (e não só de novelas, dos jornais também).

Nem acho que ver essa programação seja "maléfico", mas, para algumas pessoas, acaba sendo mais cansativo que divertido, pela análise crítica necessária... isto é, se você não quiser ser simplesmente induzido a dirigir sua vida por um caminho que não é o seu, que não é o que você escolheu.

Mas isso não se limita às novelas da Globo; quase tudo que passa na TV é assim e, em certo nível, até no cinema. A diferença é que, nas novelas da Globo, se você tirar esse elementos de distorção, sobra muito pouco. Na maioria das outras programações, ainda sobra uma boa história. :)

Pcesar disse...

Por favor, não me leve a mal. Realmente penso como você disse, em relação às mídias , que formatam as pessoas, são formtadas por elas, voltam a formatá-las, numa espiral infinita. Mas existe um bom grupo de pessoas que não vê novelas e programas vagabundos, que escolhe o que deseja ver. Essas pesoas , parece, não têm muita importância para gente de marketing, porque eles querem pegar os "consumidores". OCORRE QUE A RENDA DO BRASILEIRO É MUITO PEQUENA. pODER DE COMPRA REAL PRÓXIMO DE ZERO. tUDO É PRESTAÇÃO. eNTÃO, ESSES JÁ VENDERAM A ALMA. nÃO CONHEÇO NINGUÉM, DENTRO DE UMA BOA FORMAÇÃO, UM BOM TRABALHO, UM BOM GANHO, MANTENDO UMA VIDA TELEVISIVA, OU USANDO A INTERNET PRA FUGIR DA VIDA. pELO CONTRÁRIO, SÃO VIDAS RICAS, QUE INCLUEM LIVROS, MÚSICAS, PEÇAS TEATRAIS, VIAGTEENS, CONTATO COM A NATUREZA, DESENVOLVIMENTO FÍSICO E MENTAL, ALIMENTAÇÃO SADIA, ETC., E, PARA ESSAS PESSSOAS, E TENHO UM GRUPO ASSUM, REDE GLOBO E AFINS É ALGO COMO ACREDITAR EM DISCOS VOADORES. MAS, CLARO, SERVE PARA VOC~E FORMAR UM NÚCLEO DE MARKETING PARA A VENDA DE QUINQUILHRIAS À PRESTAÇÃO.

Fabiane Bastos disse...

Valei Caetano! Sempre trazendo comentarios interessantes.

Esclarecendo: o texto não é de minha autoria é do Leandro Vieira. Eu apenas achei bastante interessante e resolvi (com a autorização do autor, sempre!) compartilhar com quem passa por aqui.

Meu caro Pcesar, o que te leva a crer que quem vê novelas, não lê livros, ouve boa música, ou viaja?

A renda do brasileiro realmente o priva de muita coisa, o que não impede que ele busque outros caminhos para seu "desenvolvimento mental".

Fique sabendo: atualmente ninguem escolhe realmente o que deseja consumir, mesmo os bons livros, boas peças e pacotes de viagens (caros ou não) são pré-selecionados. O que podemos fazer é escolher o que melhor nos atende.

Vender a alma? Só porque não é caro? Isso é preconceito. Leve isso para seu grupo. Leiam mais livros sobre mídia e cultura e descobrirão que a mídia mesmo sendo ditada pelo mercado pode ser extremamente produtiva. E que toda manifestação cultural por mais simples ou bizarra que seja tem seu valor. Nem que seja o valor de aprender a nunca mais faze-lo.

Tenho orgulho de assistir novelas e não ter preconceito com produto algum. Mesmo pq até para falar mal é preciso saber do que se está falando. Se você não consome, não sabe.

Se Rede Globo e afins é como acreditar em OVINIS me levem para Marte!

Uma observação: se TV e internet são fugas da vida, e a sua é tão rica, o que faz por aqui?

 
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